ARTIGO
Sábado, 15 de Agosto de 2009, 13h:04
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SELVINO HECK
Cuidar da vida: economia
A economia está em xeque. Há uma profunda crise econômica em plano mundial, que é também social, ambiental e, segundo muitos, pode abalar os fundamentos do sistema capitalista e colocar em questão seus paradigmas. Segundo Aristóteles, economia é o estudo do abastecimento material do oikos ou da polis, isto é, da casa familiar ou da cidade. Economia é, portanto, administrar a casa ou a cidade. Há, portanto, uma crise na administração da casa e da cidade, que atinge o conjunto da população e da sociedade. Segundo João Pedro Stédile, dirigente do MST, esta não é apenas uma crise cíclica, tipo de crise que faz parte da lógica de funcionamento do capitalismo industrial, que ocorre a cada 10, 15 anos, de curta duração, que em geral eclode num setor da produção ou apenas num país. A atual crise é sistêmica. Afeta todo sistema capitalista. É internacional; não atinge apenas um país ou um setor da economia, e sim os pólos centrais da economia capitalista no mundo. Houve crises sistêmicas no final do século XIX, quando aconteceu a eclosão da primeira revolta popular-operária, a Comuna de Paris, depois houve a crise de 1929/1945, só resolvida com a segunda guerra mundial. Toda crise econômica, ainda mais se for sistêmica, tem graves conseqüências sociais. Afeta os mais pobres e trabalhadores, produz altas taxas de desemprego e aumento da pobreza e da fome. O número de pessoas que passam fome no mundo aumentou de 850 milhões para um bilhão. Não será mais cumprido o primeiro Objetivo do Milênio, de redução da pobreza extrema pela metade. É uma crise também ambiental. Como diz Leonardo Boff, com a crise descobrimos que os recursos são finitos e que já passamos da capacidade de produção da terra. Chegamos a um limite temporal, isto é, se os países ricos quisessem socializar o bem-estar que eles têm para toda a humanidade, precisaríamos de duas terras semelhantes a essa (Celebração da água Leonardo Boff e a ecologia do cuidado). À luz desta realidade, o 7º Encontro do Movimento Fé e Política, em Ipatinga, MG, em 28/29 de novembro de 2009, escolheu como tema: Cuidar da vida: espiritualidade, ecologia e economia. Nossa casa e nossa cidade estão com as estruturas abaladas. A palavra de Jesus Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância (Jo, 10,10) não está se realizando. Pessoas passam mais fome que antes. Mais trabalhadores estão desempregados. Famílias e comunidades se desagregam. Crescem a violência e a marginalidade. Tudo transforma-se em mercadoria para comprar e vender, num produtivismo e consumismo onde o humano não tem vez. Em crise cíclica, bastaria, na casa, mudar janelas, realizar uma limpeza geral, fazer novas divisórias criando novos ambientes, pintar as paredes, plantar flores e plantas na entrada. Em crise sistêmica, não bastam remendos ou mudanças conjunturais. Há abalos nos alicerces, as colunas mestras precisam ser trocadas: não agüentam mais a chuva, o telhado pode despencar, a casa inteira ameaça ruir. Urge mudar a estrutura. É preciso construir uma nova casa e uma nova cidade, com novos fundamentos e valores. Para que seus moradores sintam-se felizes, acolham os visitantes cansados, sintam-se protegidos da tempestade, do frio e da chuva. E os que moram na casa e habitam a cidade tenham espaço e pratiquem a solidariedade entre si, com os vizinhos e os viajantes. Como canta Milton Nascimento: Quero que a justiça reine em meu país/ Quero a liberdade, quero o vinho e o pão? Quero ser amizade, quero amor, prazer/ Quero nossa cidade sempre ensolarada/ Os meninos e o povo no poder, eu quero ver. O Encontro de Ipatinga, à luz da fé, buscará respostas para o mundo em crise. Além de respostas, porém, são urgentes práticas e compromissos. A partir da ação de milhares de lutadores e militantes sociais, cristãos comprometidos com a vida, haverá a reflexão, chegando-se a ações de mais solidariedade, levando à justiça social, a um novo projeto de desenvolvimento e sociedade, um outro mundo possível, sem crises cíclicas ou sistêmicas, onde sofrem pobres e trabalhadores, sem permitir futuro à humanidade. * SELVINO HECK, assessor especial do Gabinete do Presidente da República