NA HORA
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Cuiabá MT, Domingo, 21 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 01 de Outubro de 2011, 12h:00

GUSTAVO OLIVEIRA

Crônica sem inspiração

Esta é a minha primeira crônica de 2011. Ela chega com a primavera. Porém, neste canto solitário, quando tento extrair algo legível das teclas do computador, não são imagens da estação das flores que me inspiram. A mais dolorosa das notícias que já recebi em minha vida é que me vem à mente: a morte de meu sobrinho Yuri, no primeiro dia do ano. Morte não é um tema que é tabu para mim. No meu cotidiano de jornalista é algo bem presente. Mesmo na minha vida, ela chegou bem cedo. Perdi meu pai quando tinha pouco mais de um ano. Afinal, ela é a única coisa certa que temos nesta vida! Porém, perder um sobrinho com pouco mais de 20 anos, com toda a vida pela frente, foi algo que me tocou muito fundo. Questões existenciais, que pouco, ou nada, habitavam no meu imaginário passaram a ser mais presente. Hoje, dez meses e um dia após o acidente que o matou, ainda me pergunto: onde minha irmã acha forças para levantar todos os dias e seguir a vida adiante? Não sei! Como a vida pode ser tão dura? Tão difícil? Semana passada, quando conversava com um amigo de Rondonópolis, ele me contou uma história que ilustra bem este dilema: um amigo em comum, certa vez, aos prantos, disse que a vida estava em ‘preto-e-branco’, não havia mais sentido viver, pois acabara de perder o pai e de receber a notícia de que a filha estava com câncer. Ele disse para o amigo não pensar bobagem, perder o pai era coisa natural da vida e o problema da filha era para ser enfrentado com coragem. Para animar o seu compadre, lembrou da história de um amigo da juventude de ambos no interior do Paraná que teve, este sim, uma vida nada ‘colorida’. O rapaz se apaixonou pela filha do homem mais rico da cidade. O pai da moça não queria a união; ela acabou fugindo de casa e casando com o jovem, um simples caixa do antigo Bamerindus. O casal teve um filho e, inesperadamente, ela morre com um choque causado por um medicamento. Oito anos depois, o jovem está pronto para se casar novamente com uma mulher que o ajudou a criar o filho. No dia do casamento, quando iam buscar o vestido da noiva numa cidade vizinha, sofrem um acidente em que morrem a mulher e o filho. Desolado, o homem se torna um ermitão e some para o nordeste do país. O interessante destas duas histórias é que elas tomaram rumos felizes. O ermitão conseguiu reunir forças para se reerguer. Constituiu nova família e diz viver hoje os dias mais felizes de sua vida. As dificuldades por que ele passou o ajudaram a dar mais valor para as novas conquistas. Já o nosso amigo, que via a vida em ‘preto-e-branco’, curtiu a dor pela perda do pai, enfrentou o câncer da filha – que hoje está curado – e se tornou um político de sucesso. São histórias. Lições e exemplos de que a vida vale à pena, apesar de todos os pesares. Mesmo não sendo muito religioso, peço a Deus, todos os dias, para que minha irmã tenha forças para seguir a sua jornada. E, para o meu espanto, ela está conseguindo – pelo menos esta é a impressão que me passa. Quanto a mim, sigo firme diante deste teclado, porém, com a sensação de um vazio e uma saudade imensa. * GUSTAVO OLIVEIRA é diretor de Redação do Diário. [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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