ARTIGO
Quarta-feira, 20 de Março de 2013, 20h:55
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PAULO LEITE
Chuva fina
Pode-se dizer que a história não se atiça como os furiosos vendavais que derrubam fortalezas; mas sopra como o vento tênue e contínuo que esculpe estruturas permanentes e duradouras. A história corre mansamente pelos desvãos do tempo, impondo, liturgicamente, revisões e ajustes na memória de cada comunidade. Na semana passada, a história brasileira deu mais um passo firme rumo à verdade. O estado nacional expediu, enfim, um novo atestado de óbito do jornalista Wladimir Herzog, descartando a versão de seu suicídio e reconhecendo que ele foi vítima de tortura e morto nos porões da ditadura militar. Foram quase quarenta anos de uma realidade inconveniente. Um crime escondido a sete chaves no calabouço da consciência política da nação. Todos sabiam, mas se calavam-se diante de um pacto de silêncio que ungia organismos governamentais e militares. O grito preso na garganta sufocou, durante anos, não apenas familiares e amigos, mas todo um país que clamava por justiça. A farsa sobre a morte de Herzog ainda sintetizava a última nesga de trevas da ditadura. E, sua persistência, o capítulo derradeiro de uma página negra de nossa memória institucional. A mentira em torno de sua agonia era um paradoxo na democracia brasileira. Ao assumir a responsabilidade pela morte de Wladimir Herzog, o governo, no mesmo ato, também reconheceu o assassinato do estudante Alexandre Vannucchi Leme, também em sessões de tortura nas dependências do II Exército, em São Paulo. Foi um momento de alívio para as famílias que há muitos anos aguardavam uma manifestação do poder público. A dor pela perda dos entes queridos não diminuiu com o passar do tempo, mas ao menos, a confissão do Estado conforta e cria uma leve sensação de justiça, devolvendo aos mortos e aos seus familiares a paz a que fazem jus os corajosos. Nas décadas de 1960 e 70 travou-se no país uma guerra suja entre os órgãos de repressão política e os militantes de esquerda. Alguns cadáveres deste conflito permanecem insepultos. Wladimir Herzog era o mais notório deles, pairando sobre a nação como uma guilhotina afiada, pronta a cobrar os erros do passado. De qualquer forma, ao revisar eventos históricos, nossos contemporâneos abrem uma fenda da versão oficial dos acontecimentos e permitem uma reconciliação da nação com a própria verdade. Pois, a história não é tempestade que destrói as encostas da arrogância, é chuva fina que limpa consciências. * PAULO LEITE é jornalista e escritor