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ARTIGO
Quarta-feira, 08 de Maio de 2013, 20h:52

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Cérebros esterilizados

Em meu último artigo – “Prendam os bebês” –, para incômodo de muitos teleguiados pelos interesses imediatistas da mídia, expus os motivos pelos quais a redução da maioridade penal não solucionará o problema da violência. Hoje, quase não temos mais lugar que possa ser considerado espaço geográfico seguro. Por conta disso, sem almejar atos revolucionários fora do sistema, eu disse que a educação formal e a democratização de bens culturais mais elaborados são indispensáveis para atenuar a escalada da violência. Na verdade, só repeti o óbvio: educação e cultura de qualidade são indispensáveis à humanização dos indivíduos e ao engrandecimento de um povo. Com tais instrumentos, muitos conseguem algum tipo de ascensão social. Sem tais, tudo fica mais difícil. Todavia, jamais supus que isso – por si – sanasse o problema. É claro que a sólida educação e o acesso a bens culturais em mentes doentias de nada valerão; agora, é claro também que sem uma sólida educação e sem o acesso a bens culturais valorosos a todos os cidadãos, principalmente às camadas empobrecidas, a violência só tende a aumentar. Por isso, urge que o Brasil pense em políticas públicas (e não em politicagem de bolsas e vales disso e daquilo) que garantam esses bens simbólicos à maioria de sua gente. Mas por onde começar a pensar um problema tão complexo? Pela raiz. Ou se vai à raiz, ou não se resolve o problema. E onde estaria a raiz? No cerne do próprio projeto da Coroa Portuguesa, quando iniciou a exploração de nossas riquezas, subjugando para isso – antes de todos – um contingente significativo de portugueses desvalidos socialmente. Depois, nossos silvícolas. Por fim, os escravos africanos. Portanto, é inócuo pensar fora desse quadro de excluídos. E pensar dentro desse quadro não é simples, pois a miséria econômica e a exclusão de bens simbólicos são históricas. O resgate dessas subtrações é indispensável. Uma vez compreendida essa trajetória histórica, é mister parar com cuidado nos marcos do golpe militar de 64. Naquele momento, o acordo que o MEC fez com a United States Agency for International (Usaid), no final dos anos 60, reforçou a lógica histórica de exclusão dos mais pobres. Aquele acordo – como uma praga – foi uma sentença de indigência cultural de nosso povo. A pretexto de uma educação mais pé no chão da realidade, retiraram das grades curriculares disciplinas indispensáveis à formação de qualquer cidadão contemporâneo. Paralelo a isso, pedagogias ditas libertárias, ainda que assinadas por intelectuais de boa vontade, ajudaram a estragar o que já era ruim. Logo, no Brasil de hoje, a tragédia da falta de mão de obra qualificada, p. ex., já é fruto dos cérebros desativados de algumas gerações passadas. Detalhe: esses “cérebros” fizeram e fazem proles! Nesse sentido, com satisfação, vi que o governo boliviano – eu disse “boliviano” – acaba de expulsar a Usaid de seu território. No endosso dessa corajosa atitude da Bolívia, Janio de Freitas, em “O quintal dos sonhos” (Folha de S.Paulo; 05/05/2013: A8) relembra o documentário “El vuelo del Condor”, que denuncia “...a esterilização em massa de bolivianas, mutiladas quando supunham apenas passar por seu primeiro preventivo do câncer oferecido pela Usaid”. Por aqui, a mesma “american agency” esterilizou nossos cérebros. Por isso, o Brasil terá de reerguer a educação, ao ponto de todos almejarem bens culturais de valor real. Se isso não acontecer, o império da violência será consolidado de vez; e aí, nem Jorge salvará tanta gente. Detalhe: não temos mais tempo a perder. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP; prof. de Literatura/UFMT

Edição EDIÇÃO 16963




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