Uma Vila, uma atrocidade, uma cidade, uma fronteira. Uma pátria outrora hospitaleira. Uma família chacinada. Um povo imigrante. Um país em desenvolvimento deveras sustentado. Um ente federado. Um público pagante. Um parlamento inoperante. Um crime alarmante. Um descaso governamental. Uma vida humana. Um alojamento improvisado. Um atirador certeiro. Um funeral coletivo. Um substantivo degradante. Um suspeito infante. Um sujeito composto. Um desgosto irmanado. Um rosto procurado. Um verso triplicado. Brasil do barco e da embarcação. Brasil do arco e do arpão. Brasil do arroz e do feijão de janeiro a janeiro. Brasil do grão sem celeiro. Brasil do algodão sem fuso e sem roca. Brasil da oca sem tribo e sem tribunal. Brasil da escolaridade sem garantia institucional. Brasil da saúde sem primazia constitucional. Brasil da violência de cada dia. Brasil da displicência com a democracia. Brasil da fome que não sacia. Brasil da sede que não estanca. Brasil da alvorada dos inconformados. Brasil da revoada dos descontentes. Brasil da temporada dos escalados. Brasil da entrada dos migrantes ignorados. Oh Brasilândia, em lágrimas cristalizadas em território nacional! Oh Brasiléia, em buscas distanciadas da terra natal! Oh Brasilândia, quem te alvejou a ferro e fogo em mais de um disparo ardil? Oh Brasiléia, quem te declarou o refúgio de um país em franco descontentamento militar e civil? Brasil, Brasil, Brasil: Três vezes uma pátria republicana. Brasil, Brasil, Brasil: Três vezes uma decadência urbana. Enquanto isso, alguns ipês ainda florescem aqui e acolá. Enquanto isso, diversas arenas, múltiplas trincheiras, vários trilhos e viadutos se erguem além da outrora e lendária Vila Real do Nosso Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Enquanto isso, o minhocão do Pari se perpetua em lendas mais do que ilustradas. Enquanto isso, um mesmo Brasil continua a ser descrito pelos versos das vítimas nas estrofes dos vitimados. - Brasilândia, Brasiléia, Brasil: Quantos inocentes? Quantos culpados? Quantos predicados? Quantos sepultados? Quantos legalizados? FIM. *AIRTON REIS, professor, poeta e embaixador da paz em Mato Grosso.
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