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Cuiabá MT, Segunda-feira, 22 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 01 de Agosto de 2009, 13h:30

PAULO LEITE

Boi de piranha

Com a monumental autoridade moral de o mais sólido e impetuoso estadista de século XX, o premier britânico Winston Churchill dizia que a democracia é a pior forma de governo, excetuando todas as outras. “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita, ou sem defeito”, entoava como um mantra. Assim, ele explicava sua devoção aos primados políticos deste regime, reconhecendo suas falhas, mas renovando sua crença em seus fundamentos sociais e filosóficos. Se olharmos para o Senado brasileiro nos dias atuais, poderemos compreender a profundidade das palavras de Churchill. Não como uma frase de efeito; mas como um guia de aprendizado. Na correção dos desvios de seus membros, o Parlamento encontrará o caminho para o seu fortalecimento ético. Uma crise institucional só se debela com uma overdose de democracia. É isto! Democracia é o veneno e, ao mesmo tempo, o antídoto para curar mazelas políticas. A secular Câmara Alta do Congresso Nacional, que remonta aos idos do Império, sempre foi vilipendiada por grupos inescrupulosos que fazem deste Poder um aríete de suas plataformas pessoais. Gente como Renan Calheiros, Romero Jucá e o próprio José Sarney descendem de uma longa tradição de políticos que vivem subtraindo do Senado a confiança que a nação sempre depositou ali. Vivem de solapar a importância patriótica do organismo que existe para garantir representatividade das unidades federativas nas instâncias superiores de decisão. Não que Renan, Romero e Sarney sejam os responsáveis diretos pelos desvãos administrativos desta Casa de Leis. Eles são a porção visível. Eles são a cara da crise. Foi sob a sombra deles que vicejaram no subsolo do Senado, verdadeiras ervas daninhas como Agaciel Maia e José Carlos Zoghobi. Personagens que se alimentam da penumbra burocrática e das conveniências momentâneas. Habitam a meia luz da cena política, trafegando entre o institucional e o ilícito. Eles mesmos são o efeito da anomalia provocada pelo gigantismo parlamentar do PMDB, que se transformou num pêndulo fisiológico interessado apenas em engordar suas vantagens. O Movimento Democrático Brasileiro tornou-se uma federação de conveniências regionais, agrupadas em torno de uma legenda de forte inserção no Congresso Nacional. Não quis se tornar um partido. É, no máximo, uma frente política, sem princípios ideológicos ou programáticos. Essa elefantíase do PMDB faz mal ao Brasil. Faz mal à democracia. A crise do Senado não é política. Ela é uma crise moral. É uma crise do PMDB, que despreza seus melhores quadros e se deixa reger por rufiões da legenda. O excessivo apego aos cargos públicos fez desta sigla uma turba ululante a cata do poder. O decantado pragmatismo do PMDB descambou para a corrupção, o empreguismo e a chantagem. Sarney vai pagar o pato... Está sendo desossado diante da nação. Beirando os 80 anos de idade, ele se transformou num morto vivo a perambular pelos corredores do Senado. Sarney é digno de pena. Trocou um papel respeitado na história do país pelo limbo efêmero dos vilões da pátria. Sarney não resistirá muito tempo na presidência do Senado. Mas como ficarão Renan Calheiros, o patrocinador de sua candidatura, ou José Agripino Maia, líder do DEM, antigo incentivador e primeiro rato a pular do barco? Triste! Mas, depois de Sarney, as coisas continuarão como antes. Sarney virou refeição de piranha, enquanto a vida segue o seu curso normal. * PAULO LEITE é jornalista e escritor

Edição EDIÇÃO 16967




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