ARTIGO
Terça-feira, 30 de Setembro de 2014, 21h:15
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EDUARDO PÓVOAS
As eleições em Cuiabá
Como evoluiu a Justiça Eleitoral para o bem do povo, da cidade e de seus próprios. Lembro-me perfeitamente de que quando criança disputava os postes e os muros da cidade para colar cartazes daqueles candidatos que apoiávamos. Esperávamos ficar pronto o grude que nossas mães faziam, uma mistura de polvilho com água quente para sairmos às ruas munidos de uma pequena escada de madeira e literalmente colar os cartazes nos muros e postes da cidade. Retornávamos quase à meia-noite com mãos e roupas imundas que se o banho não fosse à beira de um depósito ajudado por uma boa bucha ainda dormiríamos com restos do grude pelo corpo. O dia da eleição era dia de festa. Quem tinha, vestia sua melhor roupa, passava um Gumex no cabelo, um Lancaster no rosto e ia pra fila de sua sessão para apanhar a senha. Algumas sessões demoravam tanto, que com a senha nas mãos poderíamos voltar para casa, almoçar e, aí, sim, retornar para o voto. As urnas, todas de lona, se dirigiam para a quadra de esportes do Colégio Estadual de Mato Grosso, onde por longos dez ou quinze dias, sob a escolta dos soldados do Exército Brasileiro, ficariam à disposição da Justiça Eleitoral. O juiz dividia a quadra em vários departamentos e cada um apurava os votos das secções, voto por voto marcada a caneta em um papel que deveria ser dobrado em três partes pelo eleitor, antes de deposita-lo na urna. Ao começar as apurações, as nossas emissoras de rádio já instaladas no recinto e os interessados atentos às chamadas de seus brilhantes narradores que abriam as jornadas dizendo mais ou menos assim: lápis e papel na mão. Após narrar os votos dos candidatos, encerravam assim : voto apurado é voto divulgado. Em seguida vinham os comentaristas, que nesses dias eram de eleições, mas que poderiam também comentar futebol, box (narrando uma luta de El Passo Sobrinho) ou uma tourada no Campo DOurique. A cidade inteira com volumes de seus rádios altos para ver se seu candidato tivera boa votação. Esse volume só seria abafado pelas escolas particulares que existiam aos montes por aqui e que seus alunos decoravam a tabuada assim: 2x1=2 2x2=4 e daí por diante, em alto e bom som! Quinze ou mais dias após, chegavam ao final às apurações. Os estudantes do Colégio Estadual (inclusive eu) ficavam possessos com a lentidão das apurações, pois a quadra ocupada impedia as nossas peladas. O único que pedia para nunca acabar as apurações era o queridíssimo Sinfrônio, com seu bar em frente à quadra vendendo como nunca o incomparável picolé de groselha e a Brahma de Agudos-SP, tida como a melhor do Brasil. À noite, junto com seu irmão, um no violão e outro no cavaquinho, fazia delirar a gurizada que, de férias, frequentava seu bar. A cidade, seus postes e muros estavam em petição de miséria. Levariam meses para que as chuvas, o vento e o sol descolassem os cartazes por nós afixados. Quanta saudade desse tempo. Candidato nenhum falava mal ou acusava o outro. O respeito era o mote da campanha. Será que apertando o botão do computador haverá saudosismo ou nostalgia para que os jovens de hoje narrem para seus filhos ou netos algo parecido no futuro? Desculpem, esqueci. Haverá, sim. Dirão que fulano era ladrão e foi eleito e que sicrano passou a perna em um correligionário, ou coisa parecida, o que de nada fará lembrar uma eleição limpa e honesta. *EDUARDO PÓVOAS pós-graduado pela UFRJ