ARTIGO
Segunda-feira, 22 de Outubro de 2012, 23h:07
A
A
LORENZO FALCÃO
Arigato
Naomi. O nome, mas nada de Campbell ou Watts como sobrenome. Não é daquelas que fica na frente das câmeras, embora também o faça. Mas o show desta Naomi, a Kawase, japonesa talentosa, é por trás das câmeras. Precisava que um filme grandioso surgisse diante de meus olhos, um tanto overdosados de cinema, para que essa arte voltasse a ser assunto aqui nas minhas palavras. Um filme encantador, daqueles que independente do final da história, deixa a gente feliz. Não sei dos outros filmes dessa japa, mas o que se vê neste é a sobriedade e a segurança absolutas de uma cineasta que tem faturado cobiçados prêmios pelo mundo afora. Em 1997, por exemplo, faturou a Camera DOr (Cannes), com o seu Suzaku, consagrando-se como a mais jovem diretora (ou diretor) a conquistar essa distinção, que premia cineastas estreantes. Ela tinha 28 anos. Quer mais? Então tá. Lá em Cannes mesmo, 20 anos depois, ela faturou o Grand Prix, com Floresta dos Lamentos (2007). Foi esse filme que me pegou pra valer há poucos dias. A cineasta, na contramão da tradição cinematográfica japonesa, que é amparada em nomes masculinos, segue numa trajetória que combina o tradicional com o moderno e com o pé fincado na autoralidade plena. Um cinema cheio de significados e que tem na sua grandeza a riqueza dos detalhes e da perfeição técnica, embora, o resultado transborde na emoção a flor da pele. Naomi Kawase usa (e não abusa) dos recursos cinematográficos para contar a história de um homem e uma mulher, de gerações separadas por décadas, mas ambos enfrentando o problema da perda de entes queridos. Um senhor, alojado em uma casa para idosos, é amparado e desenvolve bela relação afetiva com uma jovem, que acaba de chegar ao local para trabalhar. Ele perdeu a esposa há mais de trinta anos, enquanto ela perdeu um filho recentemente. Personagens com tais características são um perigo. O risco de cair no lugar comum e montar uma história açucarada é grande. Mas, claro que Kawase tira de letra essa possibilidade e faz um filme soberbo, sem arroubos e rodeios, com muita simplicidade. Utiliza-se de uma narrativa praticamente documental, para construir sua ficção. A filosofia e a dignidade dos japoneses, esses sábios orientais, também se faz presente. Arigato!!! LORENZO FALCÃO é editor do DC Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras tyrannusmelancholicus.blogspot.com.br