Detesto escolher hotéis que fazem publicidades irritantes, como por exemplo, aqui, você se sentirá em casa. Ora bolas, quero justamente tudo diferente da minha casa. Casa? Hotéis burros oferecendo diárias onde terei goteiras, prestações, notícias de mensalões, novelas, BBB, chuveiros queimados, empregada doméstica na justiça querendo receber o décimo quarto salário, ajuda alimentação, férias remuneradas de gravidez, férias remuneradas de tomar conta de filho recém-nascido e até visita da sogra com quase cem anos e, pior, com saúde. Neste carnaval, também haverá, como sempre, aquele desespero de pousadas e hotéis nesta pobre região, porque todo mundo quase se esqueceu do carnaval bororo que está bem aí. Tais registros se devem às propostas turísticas que tenho recebido e que me impedem de passar o carnaval em nosso Estado. Uma diária para apenas uma pessoa por aqui, nesta época, atinge mais de duzentos reais. E só vendem pacotes. Categoria de poucas estrelas e, como disse, nunca têm vagas. Por cima, ainda a frase dolorida: aqui você se sentirá em casa para o desespero de quem quer fugir justamente disso nos carnavais de nossas vidas. Em minha mesa de estratégia de vida, noventa e duas propostas me ofertam e orientam para os maiores países do mundo e, principalmente, para o Rio de Janeiro de meus amores e para o nordeste. Portanto, roteiro aéreo, translado, hotéis, como em Porto Galinhas no nordeste, cinco estrelas à beira mar. Uma semana inteira/casal. Com os detalhes do tempo e para casal. Além do que oferecem companhias para homens ou mulheres para aqueles que preferem e vivenciam as maravilhosas férias conjugais com outras/outros personagens. De tudo, para todas as preferências de altíssimo nível. Notem que falo do Brasil de hoje, das novelas e do BBB. Agora, o mais importante que são os preços. Mil reais. Da Europa à Buenos Aires. Casal. Uma semana inteira. Transporte aéreo. Luxo cinco estrelas. Pagamento fixo em vinte meses. É claro que reconheço a existência dos masoquistas estrangeiros que, como um tal de cantor String que adora cantar nu no mato sentado no colo de nossos índios bororos, amam a natureza, os mosquitos da Dengue, abelhas, formigas, insetos, baratas, cobras, escorpiões, malária, tifo e tratamento milionário de ano inteiro em hospitais do primeiro mundo, após tais aventuras, com o corpo pipocado e imexível. Prefiro pagar mil reais (casal) em vinte prestações sem juros, cinquenta reais mensais, em hotel cinco estrelas, beira-mar, ótima companhia feminina, seja lá quem for, assistindo ao vivo garotas sambando afinadas, apartamento acústico, eu disse acústico, café da manhã vinte e quatro horas à disposição, uísque de todas as marcas, cervejas idem, translado, ida e volta aéreas, shows gratuitos no bar do próprio hotel, passeios incluídos, shoppings do próprio hotel... Único detalhe negativo: o uísque e as garotas são por conta da gente. Do que mais de oitocentos reais à vista, por apenas os três dias de carnaval cururu e siriri que entopem meus ouvidos o ano inteiro, em casas transformadas em hotéis meia estrela, vigiado como em colégio de padres e freiras quanto à companhia... Assistindo ao vivo o desespero de uma pobreza implorando um urinol para não sujar as ruas; quarto sem ar-condicionado com aberturas para o barulho dos sem-tetos carnavalescos analfabetos e sem desodorantes. Proibido de beber uísque ou cerveja no quarto quente; ida e volta no perigo de morte ou graves acidentes nas rodovias esburacadas e sustento dos empresários vigaristas, sem shows e café da manhã das sete às nove horas rigorosamente, para quem vai dormir às seis da manhã... E ter que ler e aturar a frase pendurada na porta: aqui você se sente como se estivesse em sua casa. É preferível assistir ao Vinde e Vede. No meu caso, já estou aqui em Salvador acatando a proposta do hotel que descrevi lá bem mais acima. * PAULO ZAVIASKY é jornalista
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