ARTIGO
Terça-feira, 06 de Março de 2012, 21h:08
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GABRIEL NOVIS NEVES
A zebra
O elegante e simpático animal listrado não faz parte dos vinte e cinco bichos do popularíssimo jogo do bicho. Assim que o governo oficializou os jogos de azar, com a sua loteria esportiva, reparou essa injustiça e adotou a zebra nos anúncios dos resultados do futebol dos domingos, no Fantástico. Ela passou a ser carinhosamente chamada de zebrinha por milhões de brasileiros. Aos distraídos, ela sempre avisava: olha eu aí! Ká...ká...ká...ká...ká! Seus olhinhos piscavam rapidamente, toda afetada, em um sinal claro de gozação, quando o resultado do jogo era o inesperado. A zebra do domingo à noite, além de famosa, era odiada e amada. Deu zebra se transformou em um jargão muito popular, utilizado não só no futebol, mas em qualquer empreendimento de resultado contrário ao esperado. Em nosso Estado, ultimamente, temos tido muitas zebras. Embora sejam animais que possuam o seu habitat na África, adaptaram-se muito bem por aqui, chegando a provocar reações de ciúmes nos antigos, que estão sempre a murmurar: - só tem zebra nesta terra! Encontramo-nos diariamente com zebras das mais variadas espécies. Sempre bem-humoradas e frequentando os lugares mais sofisticados da cidade, especialmente os do poder. O secretário de Saúde do Estado foi nomeado pelo governador. Assinou atos que foram publicados no Diário Oficial. Surgiram então as reclamações de acúmulo de cargos, vetado pela remendada Constituição Brasileira. Deu zebra! Para espantar o lindo animal, o governador teve que demitir o secretário de Saúde de fato, que não é qualquer um, e anular os seus atos publicados no Diário Oficial. O governo do Estado vai à Rússia e compra jipes para fiscalizar a nossa imensa fronteira, e ainda adianta um tanto em dinheiro como sinal de negócio fechado. A zebra aparece novamente, causando grandes estragos, até agora não-corrigidos, pois tem gente mentindo. Com a saúde pública, sucateada e falida, principalmente por falta de financiamentos públicos, escolheram organizações sociais para resolver a situação no Estado. Os poucos hospitais públicos foram entregues a essas OSSs, com valores pagos, superiores àqueles da tabela do SUS. Foi a maior zebra conhecida na nossa saúde pública. Medicamentos de médio e alto custos continuam faltando, e as filas para consulta e internação cada vez aumentam mais. Zebrona! Iniciou-se o período escolar, e há um calendário de dias e carga horária para serem cumpridas por determinação do Conselho Nacional de Educação. No período de férias escolares, o governo não preparou fisicamente as suas escolas para o novo ano letivo. Professores concursados aguardam nomeação. Os temporários são nomeados. Muitas escolas estão pensando em reformas após o período de chuvas (abril), e, no momento, não têm condições de receber alunos e professores. Casas, galpões, salões, armazéns e igrejas são improvisados em escolas. Na avaliação dos alunos, vai dar zebra; na dos professores, frustração. Com exceção das obras do campo de futebol para os jogos da Copa, hoje com 25% do projeto em andamento, as demais estão aguardando recursos federais. É zebra sem dinheiro. Esperavam-se ovos de ouro, que a galinha não botou. Existem também as falsas zebras. Olha uma falsa zebra: nenhuma empreiteira do Estado participará das obras da Copa. Estas serão convidadas a construir meio-fios nas avenidas e pintá-los de acordo com o patrocinador da obra. Se os recursos forem da prefeitura, será tudo azul e branco. Isso foi combinado antes do início das obras, e estava escrito há dez mil anos. As empreiteiras locais, que prestam serviços ao Estado, por falta de pagamento de serviços prestados, paralisaram suas obras por toda esta terra. Outra falsa zebra! Ninguém acreditar no SUS não é zebra, é exemplo de cima. O MT Saúde não paga médicos, laboratórios e hospitais? Isso é tradição do governo, e não zebra! Como são bonitas as zebras! Embora, mais odiadas que amadas. *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT