FERNANDO N. DE LIMA
Dias atrás, tive a oportunidade de conversar com uma liderança estudantil aqui da UFMT. Ele, um desses acadêmicos cheios de entusiasmo e de vontade, que começa a despertar para a dimensão política da vida, no ambiente universitário. Na fase atual é terreno fértil para boas e para más influências. O tempo se encarregará de responder a isso. Durante a conversa, comentou sobre o novo Enem, sobre seu desacordo com a decisão do Consepe que estabeleceu o Enem como critério único para acesso à UFMT e sobre o cancelamento do Enem devido ao vazamento das provas. Comentou também sobre a necessidade de continuidade e de aprofundamento da discussão relativa a esse tema. Nesse sentido, esclareci que a adoção daquela decisão, a rigor, não significa necessariamente um ponto final no assunto, quer dizer, não impede a necessidade e nem a continuidade do debate. Isso depende, a meu ver, fundamentalmente, do Consepe. Ou seja, da decisão de quem preside o conselho ou da maioria dos seus conselheiros. Pensei naquela conversa com o jovem acadêmico. Isso devido ao fato de que neste mês de dezembro, pouco mais de 4 milhões de estudantes realizarão as provas do novo Enem, que doravante se constitui em fase única para acesso à UFMT. Nesse sentido, com as informações que disponho, reafirmo minha posição contrária à adoção do Enem como critério único para acesso a qualquer que seja a instituição de ensino superior. Não estou convencido de que o Enem é uma prova avançada que se diferencia de outros instrumentos do mesmo tipo, justamente porque consegue valorizar muito mais a questão interpretativa e a interdisciplinaridade. Nem que foge do padrão comum que os exames vestibulares têm no Brasil. Nesses aspectos o Enem não trará contribuição alguma para diversas universidades, dentre elas a UFMT. No tocante à alardeada democratização atribuída ao novo Enem, fato é que os alunos oriundos das escolas públicas poderão, com facilidade, concorrer para cursos em diferentes regiões do país, o que antes do Enem seria impossível. Portanto, democratizado, de fato, está o acesso à inscrição nas universidades que adotarem o Enem como fase única para ingresso na instituição. Daí, afiançar que democratizado também está o acesso ao ensino superior vai uma enorme distância. Essa democratização depende de efetivas melhorias na qualidade do ensino público e do aumento de vagas, mormente no ensino superior público. No atual contexto, a questão que me causa maior inquietação não é o recente escândalo caracterizado pelo vazamento das provas, nem tampouco está associada ao esclarecimento de quem vai arcar com o prejuízo de 35 milhões de reais devido ao cancelamento da realização do exame. Diz respeito sim, ao fato de que o Enem, em sendo adotado por todas as universidades, colocará nas mãos de pessoas, um passaporte para todos os cursos superiores do país. Assim sendo, a ocorrência de fraudes e de tráfego de influências, com ou se escândalos, será iminente. Viveremos sob a égide dessa dúvida. Por essas razões tenho a expectativa de que o Consepe, conhecendo o conteúdo das avaliações e o perfil dos alunos classificados - tendo por referência o vestibular tradicional da UFMT e o atual perfil da comunidade estudantil -, divulgue os avanços decorrentes da decisão de aderir ao Enem, na forma escolhida. A comunidade universitária e a sociedade precisam saber das contribuições desse critério para o acesso à UFMT. O tempo se encarregará de responder também a essa minha expectativa. Longe, muito longe de que querer ser portador da verdade, finalizo este texto, recorrendo a uma citação de Francis Bacon, barão de Verulan, (1561-1626), inglês, político, filósofo, estadista e chanceler: A verdade é filha do tempo, não da autoridade. * FERNANDO NOGUEIRA DE LIMA é professor e ex-reitor da UFMT
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