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ARTIGO
Terça-feira, 20 de Maio de 2008, 20h:49

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

A educação, os diamantes e os cascalhos

Em um trabalho acadêmico, o pesquisador Bernardo Kucinski (Escola de Comunicação e Artes/USP) resumiu a função de cada tipo de veículo da mídia. Para ele, enquanto as grandes empresas de jornais determinam a pauta política diária do país e as redes de televisão as massificam, as revistas comerciais - mais do que outros meios de difusão - funcionam como "usina ideológica dos conceitos e preconceitos da classe média". Assim, a cada semana, as principais revistas preparam suas edições nessa perspectiva. Embora seja desigual, é legítima a disputa pela hegemonia da difusão, visando a manter a ideologia capitalista. Nessa arena, em termos de tiragem, a maior das revistas (cujo nome é o imperativo do verbo ver) esmera-se em detonar as políticas públicas, em benefício da iniciativa privada; logo, suas edições - invariavelmente - são verdadeiras "pérolas" didáticas nesse sentido. Dito isso, na condição de docente do ensino público, o silêncio não me cabe diante da edição de 07 de maio do referido veículo. Nas mesmas trilhas do irônico título do livro "Deus no céu e o mercado na terra" (Tomas Frank, Ed. Record: 2004), mais uma vez aquela revista atacou o ensino público em pelo menos dois editoriais: a "Entrevista" nas páginas amarelas - concedida por Simon Schwartzman - e o "Ponto de vista" de Cláudio M. Castro. Da entrevista de Schwartzman (sociólogo e ex-presidente do IBGE), no lead e/ou olho jornalístico - aquele resumo abaixo do título - foi destacado que, para ele "a universidade integralmente financiada por dinheiro público acaba acomodada". Na legenda da foto do entrevistado, o trabalho editorial destacou o seguinte: "No Brasil, a pesquisa acadêmica não se transforma em produtos ou serviços úteis à sociedade". Pior que isso foi o destaque da p. 14. Diferentemente do que dizia Florestan Fernandes - um dos maiores mestres da Sociologia brasileira -, o entrevistado, em tom de ameaça, diz que as "Instituições e pesquisadores (das universidades públicas) têm de ser incentivados a buscar parcerias com as empresas. Precisam ganhar alguma coisa com isso, mas têm de perder se não o fizerem..." Essa ameaça - na base da barganha - é uma das coisas mais abomináveis das que já li sobre o ensino público; contudo, é bom lembrar que, infelizmente, isso já ocorre em larga escala nas universidades, mas nas áreas de interesse estratégico do mercado. Aliás, via-de-regra, tais transações são feitas pelo meio mais propício à corrupção; em geral, as parcerias são firmadas por institutos e fundações ditas de apoio das universidades, como aquela da UNB... Ampliar essa prática com empresas privadas é minar ainda mais a função social da universidade; é exterminar o pouco do público que resta em nome do endeusado mercado. De qualquer forma, seria interessante o sociólogo entrevistado responder como, p. ex., todos os professores de literatura (brasileira, latina, grega, francesa...) ou de filosofia, ou mesmo de sociologia - como ele próprio - poderiam estabelecer algum tipo de parceria com empresas. É possível? Qual empresa compraria tais "produtos" e/ou "serviços úteis"? Ou tais ensinamentos não são úteis? Como vêem, essa visão de universidade utilitarista, factual e mercadológica é o fim da essência mesma da instituição chamada universidade. Quanto ao "Ponto de vista", as "pérolas" ali contidas referem-se aos outros níveis do ensino: fundamental e médio. O fio condutor do discurso de seu autor - a competitividade - é igual ao do sociólogo da entrevista. A diferença é que a competição tratada por Castro centra-se na atuação dos estudantes, vistos em dois grupos distintos. Para ele, uns são como diamantes (não mais que 3%) e os demais são cascalhos. Com essas duas metáforas de tipos humanos - aliás, próximas das metáforas bíblicas do joio e trigo -, mas sob o pseudo-discurso de igualar pobres e ricos, o Sr. Castro, ao invés de defender educação de qualidade para todos, defende centros de excelência para o estudante que passa a ser identificado como gênio, ou seja, um diamante que deve ser separado dos cascalhos para, depois, ser lapidado; claro que a lapidação referida está vinculada à lógica serviçal às empresas privadas. Dessa forma, vamos cada vez mais nos curvando aos interesses do mercado na terra, já quase tão entronizado quanto o Deus celestial do ocidente. O difícil é saber quem é mais onisciente e onipresente entre ambos. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo/USP - Prof. de Literatura/UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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