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ARTIGO
Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008, 21h:02

ONOFRE RIBEIRO

A discussão se amplia (2)

Na última sexta-feira registrei aqui a primeira parte do depoimento enviado por e-mail, pelo amigo e professor Arnóbio Santiago, comentando artigo anterior “Quem (não) quer trabalhar?”, cujo tema é o despreparo da juventude mato-grossense para o mercado de trabalho atual. Santiago enviou-me seu depoimento relatando que chegou a Cuiabá no começo da década de 70 para dirigir a área operacional de uma grande empresa revendedora de tratores pesados, que precisou buscar técnicos qualificados em vários estados do país. Ela compara a situação daquela época com a escassez de recursos humanos qualificados de agora, para os projetos agroindustriais da Sadia e da Perdigão em Mato Grosso. Transcrevo a segunda parte do seu depoimento: “Hoje, um aluno do curso superior Tecnólogo de Obras, que é vendedor de produtos elétricos para a Sadia e Perdigão, passou-me as seguintes informações, que ele obteve de funcionários destas 2 empresas na semana passada, em Lucas do Rio Verde e Nova Mutum. 1ª) A Sadia classifica seus funcionários do nível 1 a 8. 2ª)O nível 1, que corresponde a 1 ajudante tem o salário fixo de R$680,00 (com direito a café da manhã, refeição, alojamento), sendo descontado R$62,00 do alojamento. 3ª)O alojamento corresponde a 1 casa para 4 pessoas de mesmo sexo; 4ª) A prefeitura de Lucas proíbe a construção de casas de madeira na cidade. 5ª) As escolas públicas de Lucas são de alta qualidade de ensino, com completa estrutura para os alunos (informática, línguas, etc); 4ª) A Sadia promove para os funcionários, fora do expediente normal, cursos gratuitos para aumentos de níveis. 5ª) A Perdigão, em Nova Mutum, não fornece alojamentos para seus funcionários. 6ª)O aluguel de 1 casa (sala+quarto+banheiro) em Nova Mutum corresponde a R$450,00. 7ª) Um eletrotécnico especializado da Perdigão ganha R$1.200,00 /mês e descontando o aluguel de sua casa, fica com o líquido de R$750,00 para sustentar sua família. 8ª) A maioria dos funcionários contratados são da região de Rosário Oeste, Nobres, Diamantino. Realmente, com os salários ofertados pelas 2 empresas, somente pessoas solteiras que não têm nenhuma outra opção em seus estados poderiam vir tentar fazer o seu "pé-de-meia" em Mato Grosso. Torna-se necessário uma nova reflexão sobre a política de salários dessas 2 empresas do nortão. Como professor de 2º e 3 º graus posso afirmar-lhe o seguinte com relação à nossa educação no país. Até o ano de 1996 era levada muito a sério, e prova disso, você pode lembrar-se bem de nossos tempos de ginásio e de científico, em escolas públicas de alta qualidade, que tínhamos provas escritas e orais no final do ano, mesmo que tivéssemos média 10, com riscos de ficar para uma prova de 2ª época em fevereiro do ano seguinte. Era uma verdadeira maratona, mas a gente aprendia "na marra". Agora, a partir de 1996, a nova Lei de Diretrizes e Bases obriga o professor a aprovar o aluno em quaisquer circunstâncias, saiba ou não, com a enganosa "recuperação de três dias", pois, senão vai acarretar evasão dos alunos e prejuízos para o governo. Até o Estatuto da Criança e do Adolescente, a partir de 1990, veio interferir no Ensino, pois, se o adolescente imaginar que sofreu algum tipo de restrição por parte do professor, ele e seus pais podem denunciá-lo e processá-lo, passando por humilhações perante os demais alunos, como já aconteceu com alguns colegas. Por isso que alguns colegas já desmotivados com o atual sistema de ensino criaram o seguinte jargão: "Eu finjo que ensino e os alunos fingem que aprendem". O assunto continua amanhã com outros depoimentos de leitores. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e das revistas RDM e Centro-Oeste [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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