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ARTIGO
Sábado, 20 de Setembro de 2008, 11h:32

PAULO RONAN

A crise

Cuiabá tem de se orgulhar por ter entre seus filhos um dos maiores intelectuais brasileiros. Professor João Fortes. Não fui seu aluno. Sempre teve uma cadeira no curso de economia, mas eu não tive a sorte de tê-lo entre meus ex-professores. Sempre que podia assistia suas aulas em outras turmas. Conversava com ele nos corredores da gloriosa UFMT. Sabia tudo de política internacional. Aquilo era fascinante. Sobre os planos qüinqüenais da antiga URSS era algo indescritível. Falava de cada um deles desde 1917 com detalhes. Dissecava-os. O que priorizou a agricultura de exportação. O que montou a indústria petroleira e do gás. A siderurgia. Como foi feito, os recursos alocados. A questão da localização das plantas industriais, a famosa técnica que o capitalismo emprestou ao socialismo (vamos chamar assim para simplificar) e este sofisticou. Parece que tinham sido 15 planos até aqueles anos do final da década de 70 e ele ali, detalhando cada um. Fui premiado com uma noite, literalmente uma noite, das nove às seis da manhã ouvindo uma conversa informal entre o Prof. Fortes e o grande Jacob Gorender, ele mesmo, o grande historiador. Gorender tinha acabado de voltar do exílio. Estava em Cuiabá para uma palestra no recém-criado curso de História. Era ali em torno de 78 ou 79. Ele vindo da Europa, judeu comunista, e a questão da revolução no Irã pegando fogo. Assisti a estas duas feras falar disso. Fui eu quem pus o assunto na roda e me deliciei com esta maravilhosa conversa. Deve ter sido o dia em que mais aprendi política na minha vida. Lembro que eles meio que desdenhavam da questão ecológica. Achava aquilo fino. Sofisticado. Aliás sempre gostei de comunistas. Lembrei muito do professor João Fortes esta semana. Ele fazia uma acusação a esquerda brasileira da confusão ideológica e teórica que ela fazia ao tratar da questão do estatismo. Relembrei isso com um ex-aluno dele dias destes. Segundo ele, ela, a esquerda, confunde estatismo com avanço e condição pré-revolucionária. Ele fazia uma análise no campo da luta revolucionaria e falava da reação via força do estado. Não lembro a formulação em toda sua extensão. Mas setores da esquerda brasileira entraram nessa. É aquela conversa da Vale e o Banco do Brasil é do povo brasileiro. A Petrobrás é do povo, estas babaquices armadas por uns malandros que vivem pendurados nestas estatais e usam o discurso correto para se perpetuarem. Entre estes malandros tem de tudo. Tem aquele artista medíocre que vive do patrocínio delas, como tem aquele pianista mineiro, um dos maiores do mundo, que também dá suas mordidas. Tem aquele armador que faz navios para a Petrobrás e que prefere conviver com uma estatal como contratante do que com outra empresa privada. Tem aquele engenheiro estável que ganha periculosidade trabalhando na Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. O único perigo ali é ser assaltado no Largo da Carioca quando sair do prédio da companhia e ir tomar um chopp gelado no Amarelinho. Como agora Lula e Sergio Cabral acabaram com a violência no Rio nem este perigo existe mais. Para esta turma os EUA avançaram e muito em direção ao comunismo nesta semana. O banco central americano, a Reserva Federal, torrou uma grana salvando empresas, e marchando em direção ao comunismo, conforme a esquerda brasileira, estatizou as gigantes de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac. Na verdade já era um pouco comunista porque já tinha um pouco de participação estatal nestas duas agências. E tem ainda 500 bilhões de dólares do governo comunista chinês investidos nelas, inclusive é daí que vem a pressão para não deixar quebrar. Acabou. Com esta parceria, claro que os EUA viraram comunista. E agora vem esta da AIG. Foram 80 bilhões do povo americano para comprar o controle da seguradora senão quebraria e faria um estrago na carteira de um bando de bancos. De agora em diante, aqueles miseráveis que vivem sofrendo no Harlem, em Nova Iorque, os desempregados e drogados do Bronx podem saber que são donos de empresas. Iguais a seus amigos miseráveis brasileiros que têm uma petroleira e uma meia dúzia de bancos. É o caso de saber como os daqui recebem seus dividendos. Eu sinceramente não sei. * PAULO RONAN é economista [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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