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ARTIGO
Terça-feira, 02 de Setembro de 2008, 20h:21

ISRAEL DE FARIA

A cor de Barack Obama

Via de regra, os presidentes dos Estados Unidos, sejam democratas ou republicanos, possuem um perfil de caráter conservador oriundo da classe média branca que os torna bastante parecidos quando no exercício do poder. Além desta particularidade fundamental, outras são exigidas. Mas, vamos escolher apenas uma. Em surdina, todos eles reverenciam a altamente sofisticada indústria bélica do seu país. Nada contra. A nebulosidade que cerca a pesquisa e a produção armamentista dos americanos está baseada em razões de Estado. O lucro advindo de tal atividade é apenas conjeturado. Porém, por ser evidente, sabe-se que o lobby da indústria bélica é um dos mais bem articulados na sua necessidade de influenciar a cúpula política e militar. Assim, após conseguir as verbas governamentais para a pesquisa das armas, elas são compradas pelo próprio Governo. Os militares, por sua vez, não podem estocá-las eternamente. É preciso que novos aparatos sejam cada vez mais aperfeiçoados e utilizados para que não haja um colapso da indústria. Mas onde utilizar? Nos próprios Estados Unidos? Impossível. Resta, então, o recurso de criar condições para bombardear outras nações cujas populações civis são as maiores vítimas de uma indústria cercada de mistério, mas de eficácia devastadora. Agora estamos diante da escolha de dois postulantes ao cargo de presidente dos Estados Unidos. O republicano está dentro dos parâmetros exigidos. No entanto, o perfil conservador necessário ao cargo sofre um abalo perante o democrata Barack Obama. O conservadorismo americano de raiz poderosa não aceita de bom grado o postulante, dito negro, para ocupar um cargo que, muitas vezes, só é desocupado antes do previsto, no tiro. Caso seja eleito, Obama pode estar certo de que tomará posse. Porém, é preciso ficar muito alerta. Sua maior diferença de propositura, em relação ao candidato republicano, se refere ao cessar fogo no Iraque, onde são gastas fortunas que pesam no bolso do contribuinte americano, não importa sua cor. Esta não é a única encrenca atual dos Estados Unidos. No seu eterno fluir, a diplomacia internacional se depara com a problemática Rússia/Geórgia e o desmembramento do território georgiano. Os Estados Unidos estão presentes, claro. Na forma de vasos de guerra e pronunciamentos da belicosa secretária Condoleezza Rice. Sem dúvida, mesmo que não admita com a mão sobre a Bíblia, a serviço da indústria bélica. Miss Rice não menciona jamais a utilização das armas para resolver atritos internacionais. A moça é refinada, tem bons modos. Ela sempre defende a implantação da ideologia democrática americana em escala global. Se necessário pela força das armas. Mas, então, a culpa não seria dela. No caso, seria do país que não entende o alcance do poder de fogo dos americanos e que, portanto, merece ser bombardeado. Barack Obama nos seus diversos pronunciamentos, assim como Miss Rice, jamais menciona a indústria bélica americana. Ele, por desconhecê-la e ela, por conhecer demais. Deixando as armas de lado e voltando à política, vemos que a escolha do vice da chapa democrática é tentativa de compensar a falta de conhecimento da política internacional de Obama. Tudo bem, ninguém nasce sabendo das coisas. Mas por que considerá-lo negro se isto afronta o conservadorismo arraigado de grande parte dos americanos? Porque classificá-lo de mulato seria bem pior. A origem da palavra mulato não é nobre – quem duvida que consulte o dicionário. Por este mesmo motivo a palavra mulato(a) não é bem aceita pelos movimentos de igualdade racial no Brasil. Mas o que fazer para minimizar os efeitos nocivos da palavra mulato? Enfatizar a cor do pai. Africano do Quênia. A mídia brasileira acompanha a americana ao dizer que “Obama tem chance de ser o primeiro presidente americano negro”. Mas e a cor da mãe dele? Não é levada em conta? Mas isto seria, é de se convir, mais uma encrenca para os democratas americanos. * ISRAEL DE FARIA é mestre em História pela UnB e pós-graduado em Relações Internacionais e Integração Regional pela UFMT

Edição EDIÇÃO 16967




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