A lua ia alta no cerrado, de tão linda fazia silenciar o Pé-de-Garrafa. Os bandeirantes esperavam acordados e silenciosos a manhã. A noite se desmanchava em dia. Era abril de Pascoal Moreira Cabral. No horizonte, o sol ensinava ouro e punha os remos pra sonhar, aos poucos o Coxipó viraria do Ouro... Ouro vai; ouro vem, o que minguava no Arraial de Forquilha; sobrava na Prainha de Miguel Sutil e sua lavra. Assim, de mudança, ela foi nascendo, espichando-se até ao rio, no Porto Geral. O ouro foi escondido sob ruas, casas e igrejas da Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá, mas a Alavanca de Ouro ainda cavouca o imaginário do cuiabano que sonha, ainda que acordado, em bamburrar. Ouro era que nem peixe: aúfa! Peixe pra comer, peixe pra iluminar a noite com candeeiros e conversas. Na canoa, lá no São Gonçalo Beira Rio, que já estava antes do primeiro, Bocão, vestido de silêncio e linhada, chama o peixe apenas no mexer da mão. Coberto de sol, ele imagina cada coisa separada (sal, cheiro verde, alho, cebola, tomate, mandioca e peixe) virando mojica e sorri com a mesma inocência do peixe... Escrevo de longe como se estivesse perto, estou em Rio Branco do Acre. Gente de falas e hábitos muito diferentes que faz com que eu tenha saudades de nossas coisas mais simples como a de ouvir vôte! ou Tchá por Deus. Ruas e prédios que nada ou pouco me dizem. Gostaria de caminhar pela Travessa da Marinha, deixar-me ir pela Rua do Meio e descansar na Praça da República como se olhasse para a antiga igreja que já não há... Pode parecer nada para muitos; todavia, é muito para uns poucos. Bom saber quem foi Liu Arruda, Mexidinha e quem é Jejé de Oyá e Nhá Barbina. Conhecer cada rua como se fosse o corredor de casa e cada praça como a uma sala. Dizer, para espanto dos filhos, que ali onde hoje é a SMTU, antigo Lavra-Pau, vivia a Porca dos sete leitões (alma penada de mulher que teria abortado) que, próximo ao Tanque dos Bugres, perseguia quem por ali passasse causando pavor aos incautos. Ao longe, um som singular e uma batida única invadem sorrateiramente a noite. A viola de cocho, o ganzá e o mocho iniciam o rasqueado: Milho torradinho socado / canela açucarada... (Pixé Moisés Martins), a morena ajeita o laço de fita e o caboclo faz sinal com a cabeça: o salão fica pequeno... Na Mandioca, a banda Coração Cuiabano revive os carnavais de antanho e lembra-se do saudoso Benjamim Ribeiro assim: Canta um índio, canta a mulata, canta o negro, canta o cor de prata.... Clube Náutico, Dom Bosco, Grêmio Antônio João, em seus salões abandonados ainda se ouvem velhas marchinhas e passos de pierrôs e colombinas... Cuiabá de ontem e de hoje. De ruas estreitas e amplas avenidas. De casas de adobe e de altos prédios. De bolichos e shoppings. De tradições e inovações. De paralelepípedos e asfalto. Amo-te assim, sempre saudoso de ti e querendo-te nova. Quero-te sempre Cidade Verde e cidade moderna. Em teu aniversário te saúdo com um brinde no qual as taças contenham o guaraná de ralar e o champagne. * SÉRGIO CINTRA é professor em Cuiabá e Várzea Grande
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