ARTIGO
Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010, 19h:50
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ARLENE ZEFERINI
2010, Apocalipse
O lixo toma a cidade, as ruas perdem-se dentro dos buracos (quem se perde dentro de algo é sempre menor do que ele), os marginais atormentam sem trégua, a dengue mata mais um, o hospital de referência fecha um atendimento de fundamental importância... Cena de total desarranjo e calamidade. Interessante que essas notícias apocalípticas surgem com mais força de dois em dois anos como que em dores de parto. Uma cólica intermitente que não chega a parir outra coisa senão uma aberração conhecida de quem se afasta do mundo da notícia do meio dia, dos jornaizinhos de plantão que são uma das trombetas desses cataclismas a filha bastarda da ética: a politicagem barata de quem não se informa. O discurso brejeiro e desgastado de programas encomendados para manipular a massa fácil. O mundo caiu. Agora é preciso um salvador que chegue ao toque das trombetas para redimir a população de todas as mazelas. O salvador que esbravejará aos quatro cantos os pecados mortais escritos no grande livro das licitações, das trocas de favores, dos contratos ocultos, dos escândalos mais terríveis capazes de estremecer os antepassados de qualquer família que tenha um nome a zelar ou de, pelo menos um nome que gere uma quantia interessante de manipulados interessados em negociar um pedaço do céu em 1º de Janeiro de 2011. O tempo em que tudo será revelado. Gravações telefônicas, documentos arquivados, dossiês, testemunhas oculares que falam de costas para as câmeras com vozes distorcidas, malas de dinheiro que rodam procurando a quem desencaminhar, ex-mulheres, ex-amantes, filhos sem reconhecimento, exames de DNA, advogados, processos, sentenças. O salvador aparecerá em grande glória e majestade. Chegará atrás de cortejos de carros que anunciarão seu nome e seu canto. As suas bandeiras virão anunciando seu número (que não é o da besta) e seu nome será repetido entre os sofridos desdentados em horários nobres a custa de algum trocado. Todos os males desaparecerão. Projetos do céu serão vistos três vezes por dia durante algum tempo antes da batalha final nas urnas. Nenhum mal conseguirá permanecer diante do desejo do salvador. Ele tem os planos certos para cada problema e, especialmente, tem o que nenhum outro falso profeta teve - a vontade de mudar o mundo. A ele se unirão todas as forças e realezas. Chegará a hora de ir aos principados maçônicos, às forças religiosas de todos os credos, às federações mais nobres e às lideranças mais simplórias. Todos os que possam arregimentar algum fiel serão visitados. Tudo será entregue ao seu senhorio. Ao soar a última trombeta do Tribunal Eleitoral os seus amigos sentar-se-ão à sua direita e à sua esquerda e aos seus pés, aos seus tapetes, às suas portas, cada qual com seu galardão e o seu reino não terá fim. Até a próxima eleição. * ARLENE ZEFERINI é Pedagoga, pós graduanda em Filosofia pela UFMT