MUNDO
Terça-feira, 12 de Dezembro de 2006, 19h:48
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FUNERAL DE PINOCHET
Idolatria e protestos marcam funeral
O ex-ditador foi cremado ontem em meio a demonstrações de apoio e de ira por parte da população chilena
ARIEL PALACIOS
Da Agência Estado Santiago, Chile
Pouco depois do meio-dia de ontem o general Augusto Pinochet - o homem que governou o Chile com mão-de-ferro durante 17 anos, que pairou como um poder paralelo sobre a ressuscitada democracia chilena durante outros oito e teve relativa influência em oito anos adicionais - transformou-se em um inofensivo punhado de cinzas. O ex-ditador Pinochet, falecido no domingo, recebeu ontem de manhã as honrarias fúnebres na categoria de ex-chefe do Exército. Posteriormente, foi levado ao cemitério de Parque del Mar, em Concón, perto da Base Aeronaval de Viña del Mar, onde foi cremado, já que a família temia que se fosse enterrado de forma convencional seu túmulo sofreria eventuais profanações. As cinzas foram levadas para a chácara da família na região do litoral central do Chile, em Los Boldos. O governo da presidente socialista Michelle Bachelet recusou-se conceder-lhe um funeral com honras de ex-chefe de Estado e só autorizou as cerimônias previstas no protocolo para a máxima autoridade militar. Também foram proibidas as bandeiras a meio pau, já que o governo não considerou a jornada como dia de luto nacional. Só os edifícios do Exercito tiveram permissão para baixar a bandeira. No entanto, durante a cerimônia fúnebre, os filhos do general colocaram inesperadamente uma faixa presidencial sobre o caixão, em claro desafio à proibição de Bachelet de conceder ao ex-ditador as mais altas honrarias. A cerimônia fúnebre foi realizada no Pátio Alpatacal, a parte dianteira da Escola Militar, com a presença da ministra da Defesa, Vivianne Blanlot, que foi vaiada por milhares de fanáticos pinochetistas que acotovelavam-se no lugar para ver o féretro do defunto líder. De forma simultânea à vaia, na hora em que Blanlot entrou no pátio da Escola Militar, um coro começou a cantar trechos da monumental ópera Die Meistersinger von Nurnberg, de Richard Wagner, a preferida do Führer Adolf Hitler. O corpo do ex-ditador permaneceu durante um dia e meio no Hall da Escola Militar, onde, em 1973, foi preparado o golpe de Estado que derrubou o presidente constitucional Salvador Allende (o primeiro marxista eleito pelo voto em toda a história mundial) e levou Pinochet ao poder. Cálculos extra-oficiais indicam que desde a manhã da segunda-feira até hoje ao meio-dia mais de 70 mil pessoas despediram-se do general. Os admiradores do ex-ditador constituíam uma ampla fauna que englobava aposentadas septuagenárias da elite santiaguenha, operários de sóbrias vestimentas, pequenos comerciantes e até skinheads. De manhã cedo, duas horas antes do início da cerimônia, iniciada às 11 horas, no meio da multidão que aguardava a abertura dos portões da Escola Militar, Ana Clara Castillo, de 75 anos, com elegantes brincos e um colar de pérolas de dupla fileira combinando com o vestido preto (em sinal de luto) carregava com fervor um pequeno quadro com uma barroca moldura dourada que retratava Pinochet em uniforme de gala. Ela disse à AE que Pinochet a havia salvo do terror comunista. Seu neto, Juan Alberto, de 16 anos, nascido após o fim do governo pinochetista, concordou enfaticamente com a avó. Segundo o jovem, "foi o melhor período da história chilena". Nos edifícios na frente da Escola Militar diversas varandas estavam sendo alugadas a 100 mil pesos chilenos (US$ 190) para grupos de admiradores de Pinochet, que desde ali podiam observar confortavelmente as cerimônias fúnebres. A multidão que conseguiu entrar nos terrenos da Escola Militar despediu-se de Pinochet acenando milhares de lenços brancos. A morte de Pinochet evidenciou velhas divisões que ainda mobilizam setores da sociedade chilena. Enquanto a cerimônia fúnebre era realizada na Escola Militar, na Praça da Constituição, na frente do Palácio de La Moneda, ao pé da estátua do ex-presidente Allende, grupos de militantes de esquerda e parentes das pessoas assassinadas por ordens de Pinochet gritavam palavras de ordem contra o ex-ditador. Segundo os Carabineros (polícia chilena), duas mil pessoas aglomeraram-se na frente de La Moneda. Elas protestaram contra a demora da Justiça em condenar Pinochet pelas graves violações aos direitos humanos, mas, ao mesmo tempo, celebraram sua morte. Entre os manifestantes que deixavam a praça ao redor das 13 horas, quando os protestos concluíam, estava Jorge Antonio Guzmán, técnico eletricista e militante comunista desde 1971, que hoje ostentava uma puída camiseta com os dizeres "Viva Fidel", embora a imagem que aparecia abaixo da frase fosse a do líder guerrilheiro Ernesto 'Che' Guevara. Guzmán, que para escapar do regime pinochetista viveu "fazendo bico" no Brasil de 1974 a 1978, comentou à AE com ironia: "Morreu o tirano. Pinochet agora está visitando seu melhor amigo, Satanás, lá no inferno! O Capeta que se cuide... Pinochet também pode traí-lo e lhe aplicar um golpe de Estado".