MUNDO
Sábado, 02 de Junho de 2001, 15h:52
A
A
PERU
Eleitores vão às urnas hoje escolher o novo presidente
THOMAS TRAUMANN
Enviado especial da AF Lima
Quase 15 milhões de peruanos irão às urnas hoje para enterrar o fujimorismo e ressuscitar o populismo no país. Os dois candidatos - o economista Alejandro Toledo Manrique (centro-direita) e o advogado e ex-presidente Alan García Pérez (centro-esquerda) - disputam o segundo turno da primeira eleição presidencial depois que o ex-presidente Alberto Fujimori fugiu do país, no ano passado. O pleito de hoje é a conclusão de uma crise política que se arrasta desde setembro, quatro meses depois da contestada vitória de Fujimori sobre Toledo. García e Toledo passaram o último mês de campanha fazendo promessas virtualmente impossíveis de serem cumpridas num país que está em recessão há quatro anos. O resultado é imprevisível. Legalmente, os institutos só puderam divulgar pesquisas até o último domingo. Todas mostravam Toledo como franco favorito. Mas, em uma semana, houve um tal crescimento da candidatura de García que porta-vozes de bancos como o Goldman Sachs e o J.P. Morgan fizeram pronunciamentos a favor de Toledo, do partido Peru Possível. Com um passado de ex-assessor do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Toledo é o favorito do sistema financeiro. O renascimento eleitoral de Alan García é o símbolo do ressurgimento do populismo no país, imitado pelo tecnocrata Toledo durante a campanha eleitoral. Auto-exilado por quase nove anos na Colômbia depois de sua desastrosa administração nos anos 80, García retornou ao Peru em janeiro com uma campanha agressiva. Prometeu crédito subvencionado para pequenos produtores, redução dos juros, bolsas de estudos para jovens e programas de combate à pobreza. Aos que atacavam a sua gestão anterior, respondia que havia aprendido com os seus erros, mas que boa parte das acusações contra si era "guerra suja eleitoral. Dono do partido Aprista (de Apra, Aliança Popular Revolucionária Americana), legenda criada nos anos 30 por um caudilho local, García é um herdeiro da tradição nacionalista que, no Brasil, teve como principais figuras Getúlio Vargas e Leonel Brizola. "É o velho populismo latino-americano que fez Vargas no Brasil e Perón na Argentina, mas com uma roupagem mais rota. O problema é que esse populismo atual não tem dinheiro para cumprir o que promete. É um populismo pobre, analisou o historiador e analista político Nelson Manrique (sem parentesco com Toledo). No seu primeiro governo, Alan García contratou mais de 150 mil funcionários públicos, aumentou os salários e quebrou o país. Desta vez, o vencedor, seja quem for, herdará um Estado virtualmente em bancarrota. O Peru paga quase US$ 2 bilhões ao ano de serviço da dívida externa (cerca de 4% do PIB) e não tem mais grandes estatais para privatizar e financiar o caixa. "Talvez seja cedo para avaliar se há uma tendência populista na América do Sul, que envolveria García no Peru e Chávez na Venezuela. Mas uma coisa é certa: há uma força eleitoral enorme para os candidatos contrários ao arrocho fiscal e ao cumprimento "custe o que custar das metas do FMI, analisou Manrique. Embora com um estilo mais tímido que García, Toledo também passou os últimos meses fazendo promessas irrealizáveis.