Diario de Cuiabá

Sábado, 14 de Maio de 2022, 00h:00

Final de "Ozark" decepciona muitos fãs, mas não é a única série a fazer isso

Espectador quer um espelho da realidade, mas também quer escapar dela

TONY GOES
Da Folhapres – São Paulo

Tony Soprano entra na lanchonete que costuma frequentar com a família. Sua mulher, seu filho e sua filha chegam em seguida, cada um por si, aumentando a tensão do espectador. O que será que vai acontecer?

Um tipo suspeito se levanta do balcão e vai ao banheiro. Outros dois entram, e olham os doces em exposição –ou estariam apenas fingindo? De repente, Tony levanta os olhos, a música para e a tela fica preta. Fim.

Depois de nove anos, seis temporadas e um número incontável de mortes, os espectadores de "A Família Soprano", da HBO, torciam por uma conclusão definitiva. A internet se dividiu, à medida em que o episódio final se aproximava. Tony deveria morrer, como castigo por seus crimes? Ou escaparia ileso, como tantas vezes acontece na vida real?

O showrunner David Chase decidiu não atender a nenhum dos lados. "A Família Soprano" simplesmente acabou, deixando no ar o destino de seu protagonista. Uma solução brilhante, no meu entender. Só que eu estou em minoria: ainda não se falava em cancelamento em 2007, mas este seria o destino de Chase nos dias de hoje.

Séries de enorme sucesso dificilmente agradam a todos seus fãs quando acabam. Séries que têm uma elevada contagem de cadáveres, então, agradam menos ainda –sempre tem alguém que acha que quem morreu deveria continuar vivo, e vice-versa.

Nos últimos anos, foram muitas as decepções. Depois de eliminar quase metade de seu elenco fixo –inclusive vários queridinhos do público– "True Blood", também da HBO, teve um desenlace melancólico em 2014. Destino ainda pior foi o de "House of Cards", da Netflix, que perdeu seu astro Kevin Spacey por causa de um escândalo sexual e teve que se virar sem ele na sexta e última temporada, exibida em 2018.

Mas nenhum desses casos se compara à frustração generalizada que foi o final de "Game of Thrones", em 2019. Os roteiristas da série da HBO tiveram apenas sete episódios para amarrar as dezenas de pontas soltas da trama, e a transição de heroína para vilã de Danaerys Targaryen pareceu apressada e pouco convincente. Até hoje há quem não se conforme com a morte da personagem.

Um novo título se junta a esta galeria da desonra: "Ozark", cuja segunda parte de sua quarta e última temporada estreou na Netlix no dia 29 de abril.

A série parte de uma premissa semelhante à da já clássica "Breaking Bad": um sujeito comum se vê enredado numa vida de crimes, e descobre que pode ser tão ruim como o pior dos traficantes. A diferença aqui é que o tal sujeito, Marty Byrde, vivido por Jason Bateman, arrasta a família inteira para seu negócio de lavagem de dinheiro para um cartel mexicano.

Ao longo de 44 episódios, "Ozark" montou um painel abrangente e assustador da perversidade humana. Wendy, a mulher de Byrde, papel de Laura Linney, se revela ainda mais calculista que o marido. Uma autêntica Lady Macbeth do Meio-Oeste americano, manipuladora e implacável.

Mas uma personagem secundária foi crescendo de importância e caindo nas graças dos fãs: Ruth Langmore, que revelou o imenso talento da atriz Julia Garner para o mundo. Caipira, desbocada, sem educação formal, mas extremamente esperta, Ruth aos poucos se torna uma peça indispensável para a engrenagem criminosa dos Byrde, antes de se tornar um estorvo.

Nesta reta final, Wendy foi sendo pintada como uma pessoa indigna de perdão, depois de ter provocado a morte do próprio irmão. Já Ruth, cada vez mais rica e poderosa, se vingava de seus inimigos e parecia a caminho da redenção.

Só que não foi isto que aconteceu. Ruth morre baleada pela mãe do traficante que matou, e Wendy escapa sã e salva. Nem mesmo um terrível acidente de carro, anunciado desde o começo da temporada, é capaz de lhe deixar um único arranhão. Um acidente, aliás, cuja única função dramática foi deixar claro que os Byrde são protegidos por força superiores –no caso, os roteiristas da série.

"Resolvemos nos manter fiéis à história", disse o showrunner Chris Mundy à revista "Entertainment Weekly". "Mantemos o final feliz para o personagem de que todo mundo gosta, ou contamos como a trama realmente se desenvolveria?".

Sim, no mundo real, Ruth teria sido morta até antes. Acontece que uma série não é a vida real. Mundy e sua equipe se esquecem de que o espectador não assiste a uma obra de ficção apenas para ter um espelho da realidade, mas também –ou principalmente– para escapar dela.

O final de "Ozark" pode ter sido o desfecho "natural" do enredo, mas também foi um desapontamento. Os roteiristas não são responsáveis apenas pelos personagens que criam, mas também pelos espectadores que cativam. Deixá-los na mão depois de tanto tempo, tanto investimento emocional, é uma maldade digna dos Byrde.


Fonte: Diario de Cuiabá

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