Diario de Cuiabá

Terça-feira, 10 de Maio de 2022, 07h:32

Retrocesso

A semente do autoritarismo está lançada, sob o aplauso de quem não sabe o que é uma ditadura

A maioria dos eleitores que vai votar em outubro não tinha nascido ou era muito jovem para entender, que, em1985, quando Tancredo Neves foi eleito Presidente da República, encerrava-se um período ditatorial de mais de 20 anos no Brasil.

No período posterior a essa ditadura militar, a palavra mais lembrada pelos políticos em seus pomposos e vazios discursos era “democracia” e todos os candidatos que queriam ficar bem com o povo, diziam-se autênticos democratas.

Daí a democracia foi caminhando sem contestações com Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer, a ponto de os brasileiros suporem que ela estava suficientemente cristalizada na sociedade e que não corria mais risco de ser questionada.

Mesmo nos momentos turbulentos, como foi a deposição do Collor, substituído por Itamar Franco e no impeachment da Dilma, sucedida pelo vice Michel Temer, não se enxergava o perigo da volta dos militares ao poder.  

Também quando, através da Lava Jato, descobriu-se uma podridão encastelada nos três seguidos governos do PT, as coisas do ponto de vista político continuaram normais, sem se imaginar nenhuma ruptura democrática.

Esses momentos foram muito graves, mas o povo continuava acreditando no poder do voto para alterar as coisas, não nas ações totalitárias.

A recorrência do Presidente – aceita como normal por parte da população - em desmoralizar as instituições brasileiras mostra o perigo que a liberdade está correndo.  A vítima predileta do Presidente é a Justiça Eleitoral, justo ela que é um dos pilares da democracia

Tanto que nas campanhas políticas para as eleições de 2018 a palavra “democracia” que reinara desenvolta no período pós-ditadura, perdeu a relevância.

O importante não era mais exaltar a liberdade, pois esta parecia consolidada, mas combater a corrupção que se alastrara na sociedade.

Agora, nos discursos dos políticos, a palavra “corrupção” está perdendo a importância, sinal de que a ladroeira segue em queda, o que é, sem dúvida, mérito do atual governo. 

Mas, em contrapartida uma outra palavra ganha força – “democracia”. Se ela está sendo lembrada com insistência é porque está ameaçada.

A recorrência do Presidente – aceita como normal por parte da população - em desmoralizar as instituições brasileiras mostra o perigo que a liberdade está correndo. 

A vítima predileta do Presidente é a Justiça Eleitoral, justo ela que é um dos pilares da democracia.

Outra compulsão sua é desmerecer a imprensa tradicional e livre, sem a qual não prospera a liberdade.

Ameaça ainda descumprir determinações do Supremo, fingindo desconhecer que, constitucionalmente, o Supremo fala por último e que deve ser ouvido e acatado. 

Há um risco real de retrocesso institucional, agravado pelo apoio ao autoritarismo de parte da população.

Até aqui, não sabíamos que um grupo importante da sociedade brasileira (cerca de 1/3 dela), apresenta uma pré-disposição de ressuscitar a ditadura, alegando medo da volta da corrupção ou da instalação de um improvável regime marxista no País.

Este grupo, estimulado pelas mídias sociais direcionadas, aprendeu com o bolsonarismo a menosprezar a imprensa profissional, a odiar o STF e a suspeitar da urna eletrônica.

Estranho que a urna, presente nas eleições brasileiras desde 1996, sem nenhum problema, de repente caiu em descrédito só porque o Presidente invocou com ela.   

A semente do autoritarismo está lançada. Pior, sob o aplauso inconsequente dos que não sabem o que é uma ditadura.

Não sabem e nunca vão aprender porque, ignorando a grande imprensa nacional, se informam somente pelo Whatsapp, Instagram, Twitter e outras plataformas da mesma espécie.

RENATO DE PAIVA PEREIRA é empresário e escritor em Cuiabá.


Fonte: Diario de Cuiabá

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