Diario de Cuiabá

Segunda-feira, 09 de Maio de 2022, 09h:19

La Putaria

Tive acertos e erros que, involuntariamente, cometi, e me fizeram sofrer

Escrever sobre a Cuiabá de antigamente, os costumes do seu povo, minha família, dos pontos luminosos tão numerosos nesta fase da vida, da minha memória, me dá um enorme prazer.

Nada de coisas polêmicas que me trazem aborrecimentos.

Entretanto, não gostaria de ser visto como o todo certinho que, infelizmente, não sou.

Tive acertos e erros que, involuntariamente, cometi, e me fizeram sofrer.

Li hoje, no segundo caderno de um jornal importante do Rio de Janeiro, uma crônica de Joaquim Ferreira dos Santos sobre costumes.

Diz o cronista, que leio há muito anos, que “um mês depois de fechar sua penúltima livraria, Ipanema abriu este fim de semana, na calçada em frente, a La Putaria”.

Aonde nós vamos parar com essa pouca vergonha, é a pergunta que faziam os velhos de antigamente!

Relembra que vem de um tempo em que as lojas procuravam para as suas fachadas nomes exaltativos.

Esta crônica sintetiza, para os jurássicos, o significado do modernoso, do refém de ideologias das minorias, e a revolta dos mínimos conceitos da moralidade e civilidade de um povo

“Imperatriz das Sedas”, “Rei da Voz” ou o mínimo que permitiam como o ”Príncipe”, a que “veste hoje o homem de amanhã”.

Todas essas lojas estão fechadas.

La Putaria poderia ser um clube de swing, ou loja de sex shop.

Talvez, até uma boate moderninha.

Mas, a nova loja de Ipanema é uma loja de doces com formato de genitália desnuda.

Meu cronista tem apenas 72 anos e sempre escreveu sobre cultura e comportamento humano.

É considerado o pai da crônica moderna, e este carioca da Vila da Penha e morador de Ipanema se assusta com o encontro dos jovens, que abandonaram o “selinho” para o beijo de língua penetrante às vezes entre três amigos ou amigas.

Foi-se o tempo do “oi”.

“O Rio de Janeiro perdeu o bom senso das convivências, e os mais cínicos defendem o nome da loja como síntese dos que nos vai pelo cotidiano”.

Nas ruas internas de Ipanema, madames em patinetes elétricas de milhares de reais e entregadores em bicicletas caindo aos pedaços, todos desprezam a mais banal das ordens urbanas e atropelam pedestres na civilização das calçadas.

“O sexo é servido na loja de doces de Ipanema, chamada de La Putaria”.

Esta crônica sintetiza, para os jurássicos, o significado do modernoso, do refém de ideologias das minorias, e a revolta dos mínimos conceitos da moralidade e civilidade de um povo. 

GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT.


Fonte: Diario de Cuiabá

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