Diario de Cuiabá

Terça-feira, 25 de Janeiro de 2022, 16h:11

Enchente ameaça cova de Dom Pedro Casaldáliga

Transbordamento do Araguaia em São Félix do Araguaia ameaça o cemitério onde o lendário bispo está sepultado

EDUARDO GOMES
Da Reportagem

São Félix do Araguaia, 12 de agosto de 2020. Conduzido por mãos fortes de guerreiros indígenas pintados para cerimônia fúnebre, com semblantes tristes e passos firmes, o corpo do bispo emérito da prelazia daquela cidade, Dom Pedro Casaldáliga, foi levado à sepultura simples, sem lápide, ao lado de covas onde peões, índios e prostitutas estavam sepultados, à margem do rio Araguaia, cujas águas foram usadas para sua ordenação episcopal. A paz do túmulo pedida pelo líder religioso foi manifestada por ele em forma de versos na cruz de madeira sobre a terra,      

“Para descansar eu quero só esta cruz de pau

Com chuva e sol

Estes sete palmos e a Ressurreição”        

  A paz da cova de Pedro Casaldáliga contrasta com a fúria das águas do Araguaia, que passa ao seu lado, e que transbordam pela intensidade das chuvas em suas margens mato-grossenses, à esquerda, e goianas e tocantinenses do lado oposto. “É enchente; bem diferente das águas altas”, alerta a prefeita Janailza Taveira (SD), preocupada com os impactos que sua cidade pode sofrer e eventuais danos ao cemitério pioneiro, onde o líder religioso pediu para ser sepultado ao lado dos humildes.            

  A enchente avança pela Avenida Perimetral, no bairro Vila Nova, que antes se chamava Alagados, por ser a parte baixa da cidade. São Félix tem 11.900 habitantes e não há casos de desabrigados nem de desalojados, mas “o problema é que as águas permanecem subindo”, alerta a prefeita.        

Mesmo que as águas do Araguaia não inundem São Félix, a cova de Dom Pedro Casaldáliga poderá ficar submersa se o nível do rio se mantiver em alta, como acontece nos últimos dias. Além da Prefeitura, a Marinha do Brasil também monitora a situação. Diante da cidade, na Ilha do Bananal, em Tocantins, a enchente atinge aldeias indígenas. Não há risco de desabastecimento no comércio local, pois a principal rodovia de acesso, a BR-242, não tem trajeto margeando o Araguaia.  

Local em que está enterrado Dom Pedro Casaldáliga, em São Felix do Araguaia

Local em que está enterrado Dom Pedro Casaldáliga, em São Felix do Araguaia

         

O BISPO – Pedro – era assim que o bispo gostava de ser chamado -  morreu em 8 deste agosto de 2020, na Santa Casa de Batatais, interior paulista, onde lutava contra doenças que teimavam em minar sua resistência, já abalada pela idade.          

Espanhol de Balsareny, província de Barcelona, nascido em 16 de fevereiro de 1928, Pere Casaldàliga i Pla – o Pedro – chegou ao Araguaia em 1970 designado para administrar a Prelazia de São Félix do Araguaia. Em 27 de agosto de 1971 foi nomeado bispo prelado pelo papa Paulo VI e sagrado bispo por Dom Tomás Balduíno, bispo da Diocese de Goiás (GO). Em seguida assumiu a Prelazia e a Catedral Prelatícia Nossa Senhora da Assunção, naquela cidade.            

Alcançado pela expulsória aos 75 anos tirou a batina sendo substituído por Dom Leonardo Ulrich Steiner. Ao tirar a batina Pedro recebeu mais que a aposentadoria canônica: ganhou um bota-fora. O núncio apostólico no Brasil, Dom Lorenzo Baldisseri, sugeriu que ele deixasse São Félix do Araguaia, para não interferir na missão pastoral de seu sucessor. Pedro lhe deu uma banana imaginária e permaneceu naquela cidade que adotava como sua.          

Pedro foi um dos ícones da igreja católica progressista. Escritor, poeta, pensador, contestador e autor de cartas circulares conceituais. O pastor católico antes de sua enfermidade e mesmo após sua aposentadoria fazia do apoio aos movimentos sem terra e indigenista o alicerce de sua evangelização. Bispo em atividade, sorriu para a Guerrilha do Araguaia, mas não participou diretamente dos enfrentamentos. Foi ardoroso defensor da Fazenda Suiá-Missu, conhecida na região como Fazenda do Papa, onde hoje se situa a Terra Indígena Marãiwatsédé da etnia Xavante.          

A comunidade acadêmica o reverenciou. Foi contemplado com os títulos de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas, Pontifícia Universidade Católica de Goiás e pela Universidade Federal de Mato Grosso – o primeiro a receber tal distinção naquela universidade. São Félix do Araguaia, uma avenida reverencia seu nome.              


Fonte: Diario de Cuiabá

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