Diario de Cuiabá

Quinta-feira, 09 de Dezembro de 2021, 00h:34

Desmatamento piora indicadores sociais na Amazônia

Índice que cruza 42 indicadores socioambientais mostra que Amazônia concentra os piores resultados e violência se dissemina pela região

DANIELA CHIARETTI
Especial para o DIÁRIO

  Os municípios que mais desmatam na Amazônia têm pior qualidade de vida. A região concentra os piores índices sociais do Brasil, vive um período de estagnação e a violência se tornou problema crônico atestado por altas taxas de homicídios. Neste cenário, capitais têm melhor performance, o que indica que o grau de urbanização determina desempenhos  mais aceitáveis.            

“Desmatamento gera pobreza e baixo progresso social”, diz o engenheiro agrônomo Adalberto Veríssimo, pesquisador associado e co-fundador do Imazon, um dos principais centros de pesquisa e ação estratégica da Amazônia.          

O diagnóstico faz parte do Índice de Progresso Social (IPS) de 772 municípios da Amazônia Legal feito pelos pesquisadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, o Imazon.          

Trata-se de uma adaptação do IPS mundial criado em 2013 por pesquisadores de Oxford e Harvard vinculados à instituição internacional Social Progress Imperative. Um dos líderes é Michael Porter, professor da Harvard Business School.            

  O IPS cruza 45 indicadores de saúde, saneamento, moradia, segurança, educação, comunicação, equidade de gênero e qualidade ambiental. O índice analisa variáveis socioambientais e produz uma nota de zero a 100, do pior para o melhor.          

  Somente 15 municípios na Amazônia - ou 2% do total - têm IPS um pouco acima da média nacional, que é 63,29. O IPS da Amazônia em 2021 foi de 54,59. A média dos 20 municípios que mais desmataram nos últimos três anos foi de um IPS de 52,38. É 21% menor que o índice nacional e mais baixo que o da Amazônia.          

  Entre os 20 municípios que mais desmatam a pior situação é de Pacajá, no Pará. Entre 2018 e 2020, o desmatamento ali foi de 690 km2. O sétimo no ranking entre os que mais derrubaram árvores ocupa a posição 771, a penúltima do índice.        

    Dos 15 municípios com os piores IPS há vários associados ao garimpo, extração ilegal de madeira e conflitos sociais. São os paraenses Jacareacanga, Nova Ipixuna, Nova Conceição do Piriá e Pau D’Arco. “Quem conhece estes municípios não se surpreende que tenham baixo progresso social”, diz Beto Veríssimo.              

“O ministro do Meio Ambiente disse que floresta gera pobreza. A Amazônia está mostrando que o que gera pobreza na região é o desmatamento”, diz o pesquisador referindo-se à fala do ministro Joaquim Pereira Leite em discurso na conferência sobre mudança climática das Nações Unidas, a COP 26, que ocorreu em Glasgow, na Escócia, em novembro.           

Dos nove estados da Amazônia, nenhum superou a média nacional do IPS. Mato Grosso (57,94), Rondônia (57,20) e Amapá (54,96) são os únicos com índices acima do IPS Amazônia 2021 (54,49).          

O resumo executivo do IPS, lançado segunda-feira (6), diz que entre os dez municípios com melhores notas, a liderança ficou com Cuiabá (MT) seguida por Palmas (TO). As capitais São Luís (MA) e Manaus (AM) ocuparam, respectivamente, a quarta e sexta posição. O polo de mineração de ferro Canaã dos Carajás (PA) ficou em sétimo.          

Capitais têm melhores notas -Cuiabá, Palmas, Manaus, Belém e São Luís- assim como municípios com mais de 200 mil habitantes. “O fator que mais explica melhoria no progresso social é a urbanização. Nas cidades, os serviços acabam sendo melhores: há mais educação e saúde, a internet é melhor. Até o saneamento é mais precário nos municípios menores”, diz.              

Jacareacanga, no oeste do Pará, considerado a capital do garimpo na Amazônia, tem muito desmatamento e baixo progresso social. “Garimpo é lugar de muita degradação social, violência e problemas de saúde. Garimpo é o fim da fila da dignidade humana”, diz Veríssimo.            

  Dificilmente um município simplesmente florestal, que não tem atividade de garimpo ou desmatamento, terá baixo progresso social segundo indica o IPS Amazônia 2021. “Será, geralmente, um município pobre, mas não miserável”, diz o agrônomo com pós-graduação em ecologia pela Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos. O município de Faro, no Pará, embora pobre tem bom progresso social porque não tem muita violência, indicador que puxa a nota para baixo.          

  “Garimpo, desmatamento, grilagem, extração de madeira são as vertentes de baixo progresso social”, diz Veríssimo.        

  O estudo permite inúmeros recortes. Neste desenho inicial os pesquisadores colocaram uma lupa no desmatamento verificado nos últimos três anos, do governo Michel Temer aos anos da gestão de Jair Bolsonaro. “Os dados indicam o estresse do período eleitoral e do pré-bolsonarismo, com a mensagem que o quadro de controle iria relaxar”, diz Veríssimo, co-autor do IPS Amazônia 2021.        

  Um dos diagnósticos claros deste último relatório é a piora dos índices de segurança. “Isso está virando um problema grave e mais disseminado na região”, diz ele.            

O acesso à internet na Amazônia Legal, embora tenha tido algum progresso desde 2014, segue muito atrás do resto do Brasil. “E isso em um momento em que vivemos a pandemia, em que as pessoas têm que fazer tele-educação, telemedicina e teletrabalho. A Amazônia está ficando para trás”.          

  Indicadores de moradia e nutrição, nos dados disponíveis, indicam alguma melhora em relação à primeira versão do índice. Os piores resultados ocorreram em direitos individuais, acesso à informação e comunicação e ainda acesso à educação superior.              

Outro resultado do estudo é que a estagnação no progresso social na Amazônia Legal não é uniforme no território. Houve avanços no IPS em alguns municípios e piora em outros.            

“O IPS é um índice orientado para medir resultados e não para avaliar investimentos”, explica Beto Veríssimo. “É uma ferramenta importante para que a sociedade civil, as lideranças do setor privado e os gestores públicos municipais, estaduais e federais possam orientar suas políticas públicas e ações a partir de um diagnóstico amplo”.            

  O IPS reúne indicadores agrupados em três grandes dimensões. O primeiro bloco analisa necessidades humanas básicas que precisam ser atendidas como moradia, saneamento, nutrição e segurança.          

O segundo bloco são fundamentos do bem-estar. “É ter internet para ser um cidadão digital no século 21, meio ambiente saudável, educação de qualidade e ir além da saúde básica, ou seja, atender necessidades de saúde de média complexidade”, explica Veríssimo. A terceira área tem elementos de oportunidade e necessidades de gênero, por exemplo.              

“Estes três temas -natureza, economia e aspectos sociais- estão sempre presentes nas minhas preocupações. Eu já havia feito estudos que demonstravam que o desmatamento não compensava em termos sociais. Usava o IDH (o Índice de Desenvolvimento Humano), que era limitado. Eu queria ter um termômetro melhor, que medisse todas as granularidades possíveis”, conta.            

  Os municípios na Amazônia, em geral, têm performance social ruim. “Os que estão listados em posições abaixo do número 400 estão realmente muito mal”, diz Veríssimo, um dos fundadores do Imazon. São Félix de Balsas, no Maranhão, é o último colocado.          

“São municípios que têm saúde insuficiente e educação sofrível além de segurança extremamente precária, saneamento ruim, dificuldade grande de reter mão de obra de nível superior, violência maior contra mulheres, desmatamento e degradação elevados. Este coquetel de problemas geralmente está presente”, diz o pesquisador.          

  As análises permitem relações de municípios com a nota de IPS e PIB per capita, por exemplo. Vitória do Xingu, por exemplo, município a jusante de Belo Monte, tem o maior PIB per capita da Amazônia, mas isso não se traduz em progresso social. “Tem renda, PIB per capita, mas a entrega social do município é desastrosa”, diz Veríssimo.          

  Os países com melhor progresso social são Suécia, Dinamarca, Noruega, Islândia, Costa Rica e Nova Zelândia. “O IPS dá notas mais altas a lugares com menos desigualdade. Os Estados Unidos, embora sejam o país mais rico do mundo, não vai bem no IPS global. É muito desigual”.        

  A Amazônia Legal tem cerca de 28 milhões de habitantes. Em 2020 a região contribuiu com 52% da emissão de gases-estufa do país, apesar de contribuir com apenas 9% do Produto Interno Bruto, segundo dados do IBGE de 2018. Países árabes, apesar de muito ricos, não têm bom desempenho no índice global.        

“O IPS mostra que não adianta ter riqueza. O importante é a forma como se transforma esta riqueza em progresso social.”          

Se a Amazônia fosse um país, seria o 40° pior colocado no IPS global, uma nota próxima à do Camboja. “Isso dá a ideia de onde estamos, ou seja, estamos mal”.            

  Veríssimo não acredita que em 2022 as notas na Amazônia serão muito melhores. “Infelizmente este processo de progresso social não é rápido. Leva uma década e exige um esforço muito grande”, diz ele.          

O primeiro diagnóstico feito na Amazônia foi em 2014 e houve outra edição em 2018. Com o atraso do Censo 2020, que só será realizado em 2022, os pesquisadores do Imazon usaram novos indicadores. “O Brasil produz muita estatística em educação, saúde e segurança, por  exemplo. Conseguimos bons dados mesmo sem ter o Censo. E agora podemos continuar fazendo o IPS todos os anos, mesmo sem o Censo”, diz Beto Veríssimo.            

 

O trabalho diz que os dados do IPS Amazônia não refletem as condições sociais e culturais específicas dos povos indígenas nas terras indígenas assim como das populações quilombolas na Amazônia Legal.              

Os indicadores medem mortalidade materna e infantil até cinco anos, mas também mortalidade por doenças infecciosas. No quesito moradia os dados indicam o desempenho na coleta de lixo, o número de domicílios com iluminação além de paredes e pisos adequados.          

No item segurança buscam-se dados sobre assassinato de jovens ou mortes em acidentes de trânsito. O acesso à informação levanta dados sobre densidade de internet com banda larga fixa e até TV por assinatura. Em saúde e bem-estar há indicadores sobre mortes por doenças do aparelho respiratório, diabetes, câncer e suicídios.            

  Na qualidade ambiental o diagnóstico passa por áreas protegidas, índices de desmatamento acumulado e recente, emissões de CO2 e focos de calor.              

O IPS busca métricas para oportunidades sociais. Entram itens de mobilidade social, acesso a lazer e cultura, número de mães adolescentes e trabalho infantil.              

O IPS Amazônia 2021 compila também indicadores sobre violência infantil, contra mulheres e indígenas. “O índice dá clareza onde estão os problemas. Seja na comparação de um município com outro, seja na tendência histórica. Acho que força uma melhoria de gestão pública do território com forte olhar para o município”.    

 

 


Fonte: Diario de Cuiabá

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