Diario de Cuiabá

Segunda-feira, 07 de Novembro de 2016, 20h:32

Lorena e Rafaela

Por algum tempo hesitei diante do projeto de escrever este texto, afinal, como aconselha meu amigo Luiz Carlos de Campos, é necessário, sempre que possível, resistir ao assédio das paixões, essa coisa de fechar os olhos e ficar ‘fechado’ com alguma coisa, fixar-se em alguma ideia, sentimento ou pessoa de corpo e alma, sem possibilidade de retorno. Mas não teve jeito. De repente me dei conta de que precisava porque precisava escrever, e publicar, logo, algo sobre essas duas meninas. Lorena Gonzaga, nascida em Campinas (SP), e Rafaela Gonzaga, nascida em Romaria (MG), são mesmo uma graça, em todos os sentidos. Louvo, pois, o surgimento da dupla Lorena e Rafaela colocando-a no mesmo nível, digamos, de um Leo Canhoto e Robertinho ou Milionário e José Rico para a moderna música sertaneja ou de um Caju e Castanha para a música regional do Brasil. E por que, afinal, gosto tanto delas? Conforme escrevi numa série de e-mails trocados com meu amigo Orides Bonfim dos Santos, de Americana (SP), acerca de tão apaixonante assunto, meus motivos para ser fã das duas são, digamos assim, básicos – ou seja: sou fã da dupla por motivos óbvios. Gosto delas, entre outras coisas, porque Rafaela, mesmo cantando uma música ‘impossível’ como a composição “Homens”, de José Rico, alcança performance vocal à altura do mestre, além de solar lindamente o violão; e Lorena, além de ter uma segunda voz espetacular, ainda se segura bem também na primeira voz (que elas às vezes graciosamente invertem). Fico, assim, às vezes por bom tempo navegando pela net em busca de coisas relacionadas às duas e sempre encantado com tanto talento, simpatia, simplicidade. Para quem não sabe, Rafaela, hoje com 15 anos, começou cantando e arranhando o violão em casa aos 3 anos de idade e a partir dos 4 já se apresentava em público; Lorena, hoje com 16, seguiu logo os passos da irmã e começou a se apresentar aos 5 anos. A propósito, entre os seus vídeos mais vistos até agora no Youtube (território no qual elas nadam de braçada desde sempre) está a canção “Nosso amor é ouro”, de Zezé di Camargo e Luciano, que é dessa época. Ao todo, já tiveram milhões de visualizações, de curtidas nessa mídia. Outros destaques da carreira delas: a gravação de “Aurora do mundo”, de Goiá, que é linda de chorar – e, de fato tem arrancado aplausos, e até lágrimas, de gente importante da música a exemplo da violeira Juliana Andrade; e o CD “Tributo a Milionário e José Rico”, gravado em 2015, depois da morte de Zé Rico, em que se destacam, além da já citada “Homens”, as canções “Escravo do amor”, “Apaixonado” e “Corpo e alma” – nesta última, por ser uma música ‘calma’, chegam a tamanha perfeição que é como se os próprios Gargantas de Ouro do Brasil estivessem ali cantando pra gente. Já em 2016, depois de quatro CDs com repertório baseado na música sertaneja tradicional, acabam de lançar o CD “Lorena e Rafaela 100% Autoral”, só de composições próprias e com foco no estilo conhecido como sertanejo universitário. Com isso, dividem opiniões: os mais puristas as criticam por terem deixado, ainda que momentaneamente, a música sertaneja “de raiz” enquanto outros as saúdam nesta sua decisão por entenderem que, com tanto talento e pegada artística, não poderiam mesmo renunciar à possiblidade de sair de um sucesso mediano (e restrito a programas de televisão e rádio identificados com o cancioneiro tradicional) para o grande sucesso nacional. Compreendo os dois lados, obviamente, mas, neste momento, dou mais razão aos segundos, aos que defendem o ‘novo’. Lorena e Rafaela, aos 16 e 15 anos respectivamente, não poderiam mesmo ficar eternamente limitadas a continuar cantando apenas clássicos já consagrados nas vozes de outros. E digo mais: músicas como “Sofrendo sem o meu amor”, de Rafaela, e “Sem dizer uma palavra”, de Lorena, são candidatas naturais a grandes hits. Isto sem contar a canção “Dias e noites”, de Rafaela, do mesmo CD, agora regravada pela jovem cantora Anadark, com participação de César Menotti e Fabiano e lançada nacionalmente neste 27 de outubro. Tudo isso somado começa a levar a carreira dessas duas joias sertanejas a uma dimensão hoje difícil de mensurar. Mesmo para gente que, como eu, tem por elas uma adoração tão incondicional. Para as duas, com tanto talento, simpatia e simplicidade, e sendo tão jovens, efetivamente o céu do sucesso é o limite. O único limite, a esta altura dos acontecimentos, possível de mensurar no presente caso. *MARINALDO CUSTÓDIO é escritor e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Prepara o seu segundo livro de crônicas para publicação. mcmarinaldo@hotmail.com

Fonte: Diario de Cuiabá

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