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Domingo, 22 de Maio de 2022, 11h:57

CINEMA

Rodrigo Teixeira representa o Brasil em Cannes com filme de diretor de 'Ad Astra'

Produtor exibe no festival 'Armageddon Time', longa com Anthony Hopkins e Anne Hathaway sobre o início da era Reagan

Guilherme Genestreti e Leonardo Sanchez
Da Folhapress - Cannes
O produtor de cinema brasileiro Rodrigo Teixeira

Salvo pela exibição da cópia restaurada de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", não há nenhum longa brasileiro na programação oficial do Festival de Cannes deste ano, mas o país marca alguma presença com "Armageddon Time", novo longa do americano James Gray, de "Era uma Vez em Nova York" e "Z: A Cidade Perdida".        

  Por trás do filme, que compete à Palma de Ouro, está o produtor carioca Rodrigo Teixeira, que já esteve nos bastidores de outros títulos internacionais, caso de "Me Chame pelo Seu Nome", indicado ao Oscar em 2018, e que também já trabalhou com Gray na ficção científica "Ad Astra", com Brad Pitt e Tommy Lee Jones.          

Mas com "Armageddon Time", Gray e Teixeira trabalham numa escala muito menor e mais intimista. O longa, com tintas autobiográficas, rememora o início da adolescência do diretor no bairro nova-iorquino do Queens, no início dos anos 1980, quando os Estados Unidos ingressavam na era Reagan, marcada por ufanismo militarista e recuo dos investimentos no setor público.        

É neste cenário que encontramos Paul Graff, papel de Banks Repeta, que vive com sua família de descendentes de imigrantes judeus vindos da Ucrânia, encabeçada pelo patriarca, o avô vivido por Anthony Hopkins, e formada também por seus pais, papéis de Jeremy Strong e Anne Hathaway.          

Na escola pública em que Paul estuda, ele trava uma amizade com Johnny, um garoto negro interpretado por Jaylin Webb, numa relação que vai escancarar os preconceitos da sociedade americana e de sua própria família.          

Rodrigo Teixeira lança "Armageddon Time" enquanto tem de responder na Justiça americana a um processo movido por Luiz Mussnich, empresário que o acusa de ter agido com falta de transparência com investidores e de ter operado um esquema de pirâmide financeira. A ação foi ajuizada na Califórnia, onde a produtora RT Features, de Teixeira, também opera.

Você vem falando com muito carinho desse projeto há anos. Quando e como ele surgiu?
Esse é um projeto que na verdade surgiu como uma conversa, durante um almoço no set do "Ad Astra: Rumo às Estrelas". Eu questionei o James [Gray] o que a gente faria em seguida e ele falou que gostaria de fazer um filme sobre a Revolução Russa. Ele é neto de ucranianos, tem fascínio por essa época e nós gostamos muito de "Reds" [dirigido por Warren Beatty, de 1981]. E aí nós entramos na pós-produção do filme, eu fui cuidar da pré-produção de "O Farol" e o James me ligou. Ele queria me fazer uma proposta e disse que não queria falar da revolução ainda, mas da infância dele. E quando o James Gray pede para fazer uma sugestão, você para para ouvir.

Um dos principais personagens de ‘Armageddon Time’ é um menino que foi amigo de infância do James Gray. Isso é real?
Sim, ele me deu detalhes da relação que ele teve com esse garoto, que teve um fim de vida trágico, se envolveu com uma série de problemas. O James acabou perdendo totalmente o contato com ele, mas ele lembrava muito de como a estrutura de racismo, de classe naquela América de Reagan moldou esse relacionamento. E aí ele me contou também que estudou na escola do pai do Trump, disse que o Donald Trump ia na porta fazer bullying com os alunos. E eu disse para a gente fazer o filme. Começamos a trabalhar no roteiro em 2019 e em janeiro já tínhamos o primeiro tratamento. A pandemia atrasou as filmagens e elas começaram só em outubro de 2021.

Como a pandemia impactou o filme, para além do atraso?
Foi estranho porque quando começamos a filmar, em outubro, eu precisei pedir uma autorização especial para entrar nos Estados Unidos. Aí com essa autorização de trabalho eu não precisei fazer quarentena, mas fiz três testes de Covid até poder entrar no set. Mas a situação, antes da ômicron, já estava mais branda por lá. Então houve um impacto em questão de logística e também no custo Covid, um gasto a mais que tivemos que embutir no preço do filme.

Como vocês chegaram no elenco do filme, com Anthony Hopkins, Anne Hathaway e Jeremy Strong, que vive um momento de ascensão com "Succession"?
A Anne estava no elenco desde o princípio, mas inicialmente teríamos Robert DeNiro, Oscar Isaac e Cate Blanchett também. Quando fomos filmar, o DeNiro teve um problema de agenda e o estúdio nos pediu alguém do mesmo nível. O Anthony Hopkins já havia flertado com o James antes e então ele foi escalado. O Oscar Isaac tinha acabado de fazer a série "Cavaleiro da Lua" e queria descansar por um tempo, então sugerimos o Jeremy e o estúdio também aceitou na hora. E a Cate Blanchett não podia ir até o set para gravar só dois dias, então conseguimos a Jessica Chastain, numa participação que nem estamos anunciando. O elenco acabou com atores desprovidos de mau humor e o legal é que a Anne é talvez a atriz mais cinéfila com quem já trabalhei. Ela conversava sobre cinema no mesmo nível que o James Gray.

Você costuma dizer que valoriza a era hollywoodiana em que os diretores tinham mais liberdade criativa. Qual foi o seu trabalho como produtor neste filme?
James Gray costuma ouvir muito na etapa do roteiro e gosta de debater a estrutura. Mas como é um filme sobre a vida dele, às vezes discutíamos e ele dizia "mas isso aconteceu assim!". Agora, no set é outra coisa. É difícil dar uma lição no James Gray. Ali, a função do produtor é só ver se o diretor está executando o que estava no acordo. Eu ia mais para aprender. Para ver a atuação do Anthonhy Hopkins, para ver o método especial do Jeremy Strong...

Qual é o método especial do Jeremy Strong?
Ele se transforma, ele entra dentro do personagem. Ele conseguiu fazer uma voz exatamente igual à do James Gray. Ele conseguiu realmente se transformar no personagem.

Agora, esse filme está sendo lançado num momento em que emergem acusações de pirâmide financeira contra você. Acha que isso pode te afetar ou afetar o filme?
O que há em torno desse caso é uma não concordância em relação a projetos. Nós não concordamos, e o caso foi parar na Justiça. Mas houve uma espetacularização em torno disso, com o claro objetivo de me difamar. Mas a forma como resolvo isso é com trabalho. É o trabalho que prova a dignidade. O processo eu deixo para que os advogados discutam.

Falando em projetos novos, tem planos de voltar a filmar com James Gray? Quais são seus novos projetos?
Acabei de filmar com Marco Dutra [diretor de "As Boas Maneiras"]. Tenho uma coprodução com o Walter Salles. E devo lançar em breve um novo filme do Aly Muritiba [de "Deserto Particular"]. Das internacionais, deve sair o novo do diretor de "Pig", Michael Sarnoski. E com a diretora Prano Bailey-Bond, um chamado "Things We Lost in the Fire".

Algum novo com James Gray?
Esse ainda não está tão maduro. Mas vai ser uma grande surpresa quando eu anunciar qual é o título.


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