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Cuiabá MT, Terça-feira, 09 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 28 de Junho de 2008, 14h:18

CRÔNICA

Que saudades da Samauna...

Jê Fernandes
Especial para o Diário de Cuiabá
Saudade! Prefiro não a ter. Nem ater a ela. Viver o presente é o suficiente. Mas como evitá-la se ela vem acomodada na mala das recordações que a gente carrega em algum departamento qualquer do subconsciente? Eu sempre achei o subconsciente muito inconseqüente. De uma hora para outra ele, o subconsciente, libera, seja no sono ou à luz do dia, como castigo ou presente, coisas do nosso passado. E nem tudo a gente quer recordar. Mas, deixa isso pra lá... Filosofar é desencontrar idéias. É procurar saída pela entrada... Então, como eu ia dizer; “...que saudade da Samauna”. Não sei se da Samauna da história que me contou Orlando Villasboas ou a outra que me fez companhia por alguns anos. A do Orlando era uma loira e a da minha convivência era uma negra brilhosa. Retinta. Do Orlando poucos a viram e a minha era saliente e se mostrava toda. Foi nos idos de 70, quando eu era correspondente da revista VEJA e fui designado para cobrir o contato do branco com os índios kranhakarores, também conhecidos como os “índios gigantes”. Foi a partir daí que as Samaunas apareceram na minha vida. Antes de viajar, porém, tive que ir até ao Nono Bec, no Coxipó, na época comandado pelo coronel Meireles, esse mesmo que foi prefeito de Cuiabá, para pedir uma espécie de autorização para poder viajar até a região da Serra do Cachimbo, onde já estavam os irmãos indigenistas Cláudio e Orlando Villasboas. Foi no portão de entrada do Nono BEC que conheci como sentinela, o soldado João Pedro Marques, hoje advogado, empresário da comunicação, jornalista, radialista e amigo de copa e cozinha do governador Blairo Maggi. E meu histórico amigo, também. São lembranças dignas de registro. Mas eu falo das Samaunas: a loira e a negrinha. A loira é a da história de Orlando Villasboas, que segundo ele, a viu de relance numa tribo de índios. Para ele deveria ser filha de algum seringueiro que os índios seqüestraram. E por ali ficou. Era linda! Dizia Orlando. Muito linda! E eu a criei e guardei na minha imaginação até hoje. Aliás, dessa viagem nas redondezas da Serra do Cachimbo tenho algumas recordações. Do Nenê Andreato, por exemplo, fotógrafo que cobria matéria para Agência Nacional. O medo, no meio da mata, nos fez dormir de mãos dadas. O sargento Jurandir que chefiava um grupo de soldados do Nono Bec ficou sem jeito quando o coronel Meirelles chegou. Ele não pode hastear, no meio da mata, a Bandeira Nacional. Não sabia em que lugar ela estava amarrotada. Mas, de saudade e lembrança eu quero falar das minhas Samaunas. A loira que ficou lá no meio da mata, mas vive comigo, no meu coração. Com ela aprendi que “o que os olhos não vêem o coração sente” e a Samauna negrinha, que infelizmente, depois de uma prolongada vivência, terminou morrendo. Essa era uma cachorra muito linda. Era uma pastora alemã que eu criei com muito carinho e dedicação. A gente trocava idéias nos olhares. A partir dela passei a acreditar que “é melhor ter uma cachorra amiga ao seu lado que uma amiga cachorra”. *Jê Fernandes é jornalista, radialista, poeta, cronista, conversador fiado e colabora com o DC Ilustrado (E-mail: [email protected])

Edição edição 16957




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