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Cuiabá MT, Terça-feira, 09 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 08 de Agosto de 2009, 12h:43

CRÔNICA

Pipas, pra que(m) te quero?

Vamos espalhar pipas pela cidade, colorir o céu da charmosa localidade com pandorgas “made” in Chapada, como um plus a mais para a Copa de 2014

Valéria del Cueto
Especial para o Diário de Cuiabá
Leves, alegres, saltitantes, preguiçosas, tensas, persuasivas, suaves, nervosas, agitadas, mansas, fugitivas, alegóricas, coloridas... Pipa é um substantivo capaz de comportar uma penca de adjetivos para definir seu espírito vigente, de acordo com o vento que a sustenta. Venho de um lugar de muitas pipas que, assim como as ondas do mar deste local, são originais, fugazes e perenemente inéditas a cada movimento. Chame do nome que quiser: pipa, papagaio pandorga... Elas são para quem te quero. Mensageiras do amor e da dor. Para isso nasceram. Da dor quando servem de sinalização para o movimento das bocas e bandos. Do amor quando sobem ao céu aos milhares, como aconteceu na Faixa de Gaza há poucos dias. Um objeto tão simples, tão frágil representando tanto. Poderoso e expressivo, como a paloma de Picasso há tantos anos atrás. Bambu, seda, farinha, água e a linha. O milagre está feito. E se repete, numa resistência silenciosa pelos “aís” onde passo. Uruguaiana tem o Julinho das Pipas que, entre um conserto de bicicleta e outro (olha a bicicletaria aí, gente!), encanta a garotada e transmite seu saber às gerações. O Tribuna de Uruguaiana publicou uma matéria sobre ele, o que me fez enredar essas narrativas. Cuiabá tem o professor Ditinho que da UFMT expande seus conhecimentos pipeiros. Morador da Chapada dos Guimarães, lá estava ele no Festival de Inverno com sua oficina. Tentei inscrever-me, mas acabei perdida, sem saber direito os horários. Conversando com uma organizadora das atividades soube que a oficina aconteceu num bairro periférico. Adorei a razão do desencontro. Vamos espalhar pipas pela cidade, pensava eu, colorir o céu da charmosa localidade com pandorgas “made” in Chapada, como um plus a mais para a Copa de 2014. Ela vai acontecer na época dos melhores ventos, me contaram. Gente que entende do assunto, freqüentadores da loja de pipas e infláveis que ilustra esse texto. Fica na mesma rua da bicicletaria, na Chapada. Lá se vende pipas, acessórios e se faz consertos. Quer um lugar mais adequado para uma piparada no mega evento? É um programa bom, bonito e barato. E, muito importante, a bula deste produto não contém contra-indicações. É politicamente correta e ambientalmente irrepreensível. Não causa danos nem efeitos colaterais. Estaríamos fazendo nossa interpretação de uma arte difundida pelo mundo inteiro. Pipas chinesas são famosíssimas, o caçador de pipas corria atrás da sua pelas ruas de Cabul, a Faixa de Gaza levanta 3.000 papagaios e a Chapada dos Guimarães dialoga com o mundo através dos ventos que sopram nos paredões do centro geodésico. Confesso a vocês que tenho uma frustração quando o assunto é pipa. Almejei, um dia, uma pipa. Essa, não era para voar. Trata-se de um exemplar (qualquer um serviria) da série feita pelo artista plástico mato-grossense Gervani de Paula. Vi os objetos do meu desejo numa exposição, na década de 80, e na ocasião não tive numerário para adquirir uma das peças. Anos depois, tentei descobrir o destino das pipas do Gervani. Estavam em coleções e eram intocáveis. Como seria a minha, se a tivesse... O desejo teve que passar e, meu lado Poliana, me convenceu que pipas são assim. Dificilmente vem pra ficar. Temos as nossas, podemos admirar as alheias mas, ambas, dificilmente voltarão a se encontrar no mesmo céu. Seja ele qual for... * Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval. Este artigo faz parte de uma série do SEM FIM http://delcueto.multiply.com . **Mais pipas na vida da autora no artigo A PIPA, publicado em maio de 2005. Segue o link do SEM FIM que ele está na capa

Edição EDIÇÃO 16958




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