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ILUSTRADO
Sábado, 24 de Julho de 2010, 11h:46

LITERATURA

Paulo Coelho retorna à não-ficção em Aleph

No início do livro, o autor revela preocupação em tratar de um questionamento espiritual, no momento em que o planeta é assolado por sérios problemas materiais

Ubiratan Brasil
Agência Estado
Aleph é a primeira letra de diversos sistemas de escrita e normalmente simboliza o início de algo. É ainda o título de uma das principais obras do escritor argentino Jorge Luis Borges, provavelmente o ponto mais alto de sua narrativa ficcional. E, desde ontem, quando chegou às livrarias brasileiras, "O Aleph" surge também como o mais recente livro de Paulo Coelho, que marca sua estreia em nova editora, a Sextante. Na verdade, marca também sua volta à não-ficção ao relatar, em primeira pessoa, a sucessão de dúvidas sobre sua fé que o atormentou em 2006. Não foi algo passageiro ou fugaz - Coelho mostra que, para se reaproximar de Deus, era preciso reavivar experiências, como viajar e buscar novas formas de conexão com as pessoas. Assim, comungando com a observação de Borges ("O que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço"), o escritor empreendeu, entre março e julho daquele ano, uma grande peregrinação pela Europa, Ásia e África a fim de decifrar os mistérios que incomodavam seu íntimo. A motivação veio de J., seu mestre espiritual: "Está na hora de sair daqui, reconquistar seu reino." "A fé não é algo estático, mas uma dinâmica constante", diz Coelho em uma entrevista divulgada pela Sextante - o escritor ainda não conversou com a imprensa por estar em mais uma peregrinação por Santiago de Compostela. "Portanto, eu não chamaria isso de crise, mas de um comportamento normal, com altos e baixos. Uma fé que se cristaliza perde seu sentido e se transforma em fanatismo. A fé cresce quando é alimentada pela dúvida e pelos questionamentos interiores." Logo no início do livro, Coelho revela sua preocupação em tratar de um questionamento espiritual justamente no momento em que o planeta é assolado por sérios problemas materiais, como fome, desemprego, guerras. "Todos querendo resultados imediatos para resolver pelo menos alguns dos problemas do mundo ou de sua vida pessoal (...) e eu aqui, querendo seguir adiante em uma tradição espiritual cujas raízes se encontram em um passado remoto, longe de todos os desafios do momento presente?", indaga-se. A decisão se justifica, acredita ele, graças ao raciocínio de que a ordem mundial só poderá ser conquistada a partir do momento em que existir primeiro a ordem pessoal. "A viagem não foi para encontrar a resposta que estava faltando na minha vida, mas para voltar a ser rei do meu mundo. Estou de novo conectado comigo e com meu universo mágico à minha volta. É isso que faz a vida interessante: acreditar em tesouros e milagres", escreve. Durante a peregrinação, realizada principalmente pela Transiberiana (rede ferroviária com mais de 9 mil quilômetros que conecta a Rússia europeia com as províncias do Extremo Oriente russo, Mongólia, China e Mar do Japão), o escritor descreve o esforço de se despir de seu ego e orgulho para se abrir a sentimentos mais nobres como amor e perdão. TRÁGICA PAIXÃO Um dos momentos mais interessantes da narrativa é o surgimento de uma jovem leitora, Hilal, que aparece durante a travessia da Rússia e que acredita ter recebido um chamado para ajudá-lo. Mais que uma fã, ela está determinada a conquistá-lo movida por uma trágica paixão que os uniu em uma vida passada. Coelho, que é casado há 30 anos com Christina, trata a situação com cavalheirismo ("Tenho certeza de que é uma questão de tempo até que ela encontre a pessoa que Deus colocou em sua vida", diz, na entrevista realizada pela Sextante) e aproveita para tratar de um tema delicado, a reencarnação. "O Aleph", portanto, marca a volta de Paulo Coelho às origens, especialmente em obras como "O Diário de Um Mago" e "O Alquimista", que revelam seu fascínio pela busca espiritual. Aos detratores, porém, o novo título é uma tentativa de resgatar tempos gloriosos, ameaçados pelos últimos livros de ficção que não venderam tanto como de costume. Seja qual for o ponto de vista, Coelho continua atraindo muitos leitores, computando mais de 135 milhões de exemplares vendidos em toda sua carreira. Detalhe que não escapa à Sextante, que antecipou a venda de "O Aleph" para os fãs do escritor, além de rodar 200 mil cópias como tiragem inicial.

Edição EDIÇÃO 16958




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