ILUSTRADO
Sábado, 03 de Julho de 2010, 14h:27
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FOTOGRAFIAS
Obra expõe a intimidade de Frida Kahlo
A mais popular entre as mulheres pintoras, nascida em 1907 e morta em 1954, tem seus mistérios compartilhados com o livro "Frida Kahlo - Suas Fotos"
Antonio Gonçalves Filho
Agência Estado
Se o mundo tivesse acreditado nas inocentes mentiras da pintora mexicana Frida Kahlo, este ano seria comemorado seu centenário do nascimento (ela dizia ter nascido em 1910). Mas, como existem cartórios de registro civil, ele já foi comemorado três anos atrás. A mais popular entre as mulheres pintoras, nascida oficialmente em 1907 e morta em 1954, escondia outras coisas além da idade. Parte desse mistério é desvendado agora com o lançamento do livro "Frida Kahlo - Suas Fotos" (Cosac Naify) com mais de 400 fotografias do arquivo Museu "Frida Kahlo" sob a guarda do Banco do México, selecionadas pelo fotógrafo, editor e curador mexicano Pablo Ortiz Monastério. Publicada simultaneamente com a Editorial RM, do México, a edição brasileira do livro, tiragem única com 7 mil exemplares, chega às livrarias neste fim de semana e mostra por meio de imagens a trajetória da pintora surrealista casada com o pintor Diego Rivera. E é justamente a relação dos dois o tema de outro livro, "Diego e Frida", originalmente publicado em 1993 pelo Nobel francês J.M. Le Clézio e agora relançado pela Editora Record. Muitos fatos omitidos pelo autor são agora revelados no livro das fotos da artista, que durante muito tempo ficaram distante do olhar indiscreto do público. São fotos que explicam sua obsessão por autorrretratos herdada do pai, um fotógrafo judeu de origem alemã, e escancaram a liberdade sexual da artista, amante tanto de personagens históricos - o líder revolucionário Leon Trotski - como de mulheres emancipadas, entre elas a fotógrafa Tina Modotti e Tara Pandit, sobrinha do ex-primeiro ministro indiano Jawaharlal Nehru. Parece claro que Diego Rivera, que traía Frida com mais frequência, pretendia manter certa discrição sobre esses relacionamentos. Tanto que, ao fazer a doação do acervo fotográfico da mulher ao Banco do México, pediu que o material fosse guardado e só se tornasse público 15 anos depois de sua morte. A empresária, musicista e filantropa mexicana Dolores Olmedo, amiga do casal, guardou o acervo por 50 anos. Após sua morte, em 2002, ele foi finalmente aberto e catalogado. Um dos mais conhecidos quadros de Frida Kahlo, de 1939, mostra duas irmãs siamesas sentadas de mãos dadas e com os dois corações unidos pela mesma artéria. Para o escritor francês J.M. Le Clézio, trata-se do mais sincero autorretrato feito pela pintora entre os muitos que pintou. "As Duas Fridas" seriam tanto a artista sonhadora que vivia nas nuvens como a mulher sofrida que aos 6 anos foi atingida por uma poliomielite e aos 18 teve a coluna vertebral fraturada num acidente de ônibus. Le Clézio se propõe, em seu livro, a contar a turbulenta história de amor dessa mulher dividida com o também pintor Diego Rivera, mas, discreto, evita outros casos - com homens e mulheres - que esclarecem muito sobre a vida da pintora surrealista - rótulo, aliás, que detestava. Assim, o livro "Frida Kahlo - Fotos", com lançamento mundial no Brasil, Alemanha, Canadá, EUA, França e México, avança no ponto em que Le Clézio recua, mostrando como a garota precoce construiu sua autoimagem fazendo intervenções em alguns de seus retratos, seja melhorando seu rosto ou eliminando os de pessoas que, de algum modo, detestava, como a segunda mulher de Rivera, Lupe Marín, cujo rosto rasgou numa das fotos.