ILUSTRADO
Sábado, 17 de Março de 2007, 12h:44
A
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RESENHA
O avesso do avesso
O Avesso da Vida, romance pós-moderno de Philip Roth, tem cada capítulo reescrevendo ou simplesmente negando o anterior
André de Leones *
Especial para o Diário de Cuiabá
Eu não esperava ler outro livro maravilhoso de Philip Roth por agora. Fui a um sebo procurar por Os Mímicos, de V. S. Naipaul, quando dei de cara com esse O Avesso da Vida (Cia. das Letras). Aviso logo que é um livro que se encontra esgotado, mas que pode ser facilmente encontrado em sebos, reais ou virtuais (joga lá no Google a palavra sebo que aparecem lojas de livros usados de todo o país, e todas entregam os livros comprados pelo correio cobrando uma pechincha; em uma dessas, encontrei o inencontrável Vineland, de Thomas Pynchon, também esgotado há séculos). Philip Roth sempre me pega no contra-pé, como há dois anos, quando li, deliciado, um de seus melhores livros da década de 1970, When She Was Good (não me lembro, ou não sei, o título em português). Eu continuo achando O Teatro de Sabbath e Pastoral Americana as obras-primas do sujeito, e Complexo de Portnoy (relançado pela Cia. das Letras há pouco), muito embora o mais festejado dos livros dele, o menos feliz em sua sátira judaica ostensivamente explícita e caricata, escancarada, desconexa, não-orgânica como os trabalhos posteriores do autor (é um de seus primeiros livros). O Avesso da Vida me derrubou mesmo da cadeira. Dentre os que li, é o romance pós-moderno de Roth, com a estrutura toda para fora, visível, cada capítulo reescrevendo ou simplesmente negando o anterior. A história é recontada várias vezes, papéis são invertidos, detalhes importantíssimos são alterados ou transformados. O todo assume, explicitamente, o status de ficção à medida que as entranhas do romance são expostas. Ao mesmo tempo, é, juntamente com Operação Shylock: uma Confissão (Cia. das Letras), dentre os que li, o livro em que Roth discute as implicações políticas intrínsecas ao estado de Israel e à sua manutenção com maior clareza. Opiniões de todos os tipos, sionistas ou diasporistas ou simplesmente terroristas (a tentativa de seqüestro do avião por um, sim, norte-americano é um dos pontos altos), são despejadas nas páginas e pontuadas pelo sarcasmo do autor. Impressiona como ele equilibra uma obra que é literariamente lúdica, auto-reflexiva (cada capítulo como o avesso do anterior, embora a trama nunca deixe de progredir), com uma discussão aberta acerca da(s) mentalidade(s) judaica(s) contemporâneas. Que Nathan Zuckerman, o alter-ego mais freqüente de Roth, seja o catalisador de tudo, e, o mais importante, que em um dos capítulos Roth narre a morte e o funeral de Zuckerman, bem, esses são apenas alguns dos socos que levamos no decorrer da leitura. André de Leones, goiano de 27 anos, é autor de Hoje está um dia morto (ed. Record), romance vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005, e mantenedor do blog Canis sapiens (canissapiens.blogspot.com)