Um dia após a lição de tolerância do cineasta afegão/alemão Burhan Qurbani - em "Shahada" ("Fé") -, a bósnia Jasmilla Zbanic reabre as feridas da oposição entre o Islã e o Ocidente em seu segundo longa. Há quatro anos, Jasmilla ganhou o Urso de Ouro com "Grbavica", sobre o drama das mulheres que tiveram filhos nascidos do estupro, na Guerra da Bósnia. A maternidade está de novo no centro das preocupações da autora em seu segundo longa, "Na Putu" ("On the Path"). O filme é sobre 'identidade'. Mostra um casal em Sarajevo - ela é aeromoça, ele é controlador aéreo. Querem um filho, mas ele bebe, é surpreendido em serviço e suspenso das funções. Um acidente banal na rua o aproxima de um antigo companheiro durante a guerra. Todos são islâmicos, mas o amigo é ortodoxo. Consegue levar o marido da heroína para a mesquita. O cara que antes não ligava para a religião se orienta para o dogma e o fanatismo. A mulher não aceita sua intransigência, a união se ressente. Ele diz que viviam em pecado e por isso Alá não os abençoava com um filho. A criança virá e, quando - ou se - isso ocorrer, ainda será desejada? A condição da mulher também interessa a outra diretora, a argentina Natalia Smirnoff, de "Rompecabezas" ("Puzzle"), o único filme latino-americano da competição. Natalia tem um quê de Lucrecia Martel, um certo gosto pelo cerebralismo (e pelos símbolos). Uma mulher ganha um quebra-cabeças de presente no seu 50º aniversário. O jogo vira uma obsessão, ela arranja um parceiro fora de casa (e do casamento). Ambos querem participar de uma competição aqui na Alemanha. Muda tudo na vida da protagonista. O puzzle a fascina tanto como o mundo dos ricos, que passa a frequentar. A família não a entende. Se outra mulher - como Tilda Swinton, no ano passado - presidisse o júri, não seria arriscado antecipar um grande prêmio para Natalia.