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Cuiabá MT, Terça-feira, 16 de Agosto de 2022

ILUSTRADO
Sábado, 06 de Agosto de 2022, 08h:26

JÔ SOARES

Jô Soares era elegante e transmitia grandiosidade em todo tipo de contato

O seu exemplo não se encerrou com sua morte, mas, como toda boa reticência, se abre em novas possibilidades

ZECA CAMARGO
Jô Soares

O envelope apenas com meu nome chegou à minha casa no dia seguinte ao jantar inesperado que tive de improvisar para o convidado ilustre. Dentro dele, um livro que eu havia mencionado na conversa animada entre pratos, "Trinta Anos de Mim Mesmo".              

Camuflado numa encadernação luxuosa de couro, o livro de Millôr Fernandes que eu acabava de ganhar de presente estava irreconhecível, mas as iniciais gravadas em ouro na lombada não faziam segredo de qual biblioteca ele havia sido gentilmente transferido para a minha –J.S.      

    Em mais de um lamento em redes sociais, de fato, em mais de um obituário oficial que lemos com tristeza na celebração da vida de Jô Soares, a palavra "elegância" aparece com duvidosa frequência. Duvidosa não porque ele não a merecesse, mas porque o adjetivo que vem dela, "elegante", sugere talvez menos do que a grandiosidade que Jô transmitia em qualquer contato, profissional ou pessoal.          

  Sua elegância superficial era evidente –da icônica foto dele quando criança vestido de fraque e cartola ao estupendo carrossel de gravatas-borboleta que ele desfilava no seu talk show. Mas havia, para além dessa imagem impecável, uma elegância emocional e inteligente que nesses tempos de tuítes alucinados, nos quais informações sobre indiscrições sexuais de famosos ou anônimos são moeda corrente que se troca por cliques, serve como um antídoto para nossas relações tão belicosas.        

  Com sua elegância, ele levava a conversa com seus entrevistados para onde quisesse. E nunca deixava de "entregar", para usar um termo tão atual que certamente faria Jô, letrado em inglês como era, levantar uma ou duas pestanas.        

  Sentei naquele seu sofá em duas ocasiões. Na primeira, nervoso ante ao altíssimo patamar da conversa a que até então só assistia como telespectador, precisei de um par de minutos para entender que eu deveria me entregar ao sabor daquela troca. Na segunda, já com essa experiência, eu me senti bem mais à vontade, a ponto de aceitar seu convite para me levantar e arriscar passos de dança indiana que não treinava havia mais de década.          

Tudo, claro, porque Jô me pediu com elegância. Que vinha, digamos, desde o impecável e hilário mordomo Gordon, que ele viveu no seu primeiro papel de destaque na TV, no programa de humor "Família Trapo", na Record dos anos 1960. Tinha elegância também sob o chapéu "napoleônico" que usava montando um cavalo de pau ao lado de seu parceiro Renato Corte Real, interpretando a surreal dupla Lelé e Da Cuca, em 1972, no "Faça Humor, Não Faça a Guerra".          

  Elegância ele esbanjava em cada personagem que criou nos seus programas, da cantora Norminha —que, visionária, esboçava um rap em canções como " Um Croquete"— ao amigo que discretamente comentava sobre o comportamento "talvez" gay do filhos dos amigos –"uummm, já entendi".          

Haverá elegância maior do que brilhar nos palcos fosse com uma comédia rasgada dos anos 1970, como "Tudo no Escuro", na qual entre tantas cenas ele aparecia com as mãos nos seios de Henriqueta Brieba, fosse dirigindo Denise Fraga, Marco Ricca e Glória Menezes na sua versão para "Ricardo 3º", de Shakespeare?  

        Foram inúmeras linhas elegantes, desde o primeiro parágrafo de "O Xangô de Baker Street" à elaborada trama policial de "As Esganadas". E em cada detalhe da própria história nos dois impressionantes volumes de "A Vida de Jô".        

  Mas sobretudo houve sempre a elegância da conversa, da mente curiosa, da perspicácia social. Esbarrar em Jô longe das câmeras era rever o mesmo homem brilhante que recebia você sob os holofotes de um estúdio. A conversa parecia retomar de onde tinha parado e nunca se encerrava. Ele se despedia sempre com elegantes reticências.        

  Exatamente os três pontos que ficam agora nessa despedida. O exemplo de Jô não se encerrou com sua morte, mas, como toda boa reticência, se abre em novas possibilidades. Que ele nunca deixou de abraçar. Elegantemente.


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