ILUSTRADO
Segunda-feira, 03 de Setembro de 2012, 21h:17
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RESENHA
Emoções e a opção entre certo e errado
Obra que está entre os melhores livros do século XX traz como pano de fundo o fato de o conteúdo do vaso ser mais importante que seu recipiente
Jacir Alfonso Zanatta*
Especial para o Diário de Cuiabá
Um livro esculpido com maestria. Um autor que consegue mostrar que verdade e falsidade se misturam e que os homens têm dificuldade para reconhecer entre o certo e o errado quando são levados pela emoção. Uma obra classificada em 86º lugar na lista dos melhores livros de literatura do século XX e que traz como pano de fundo o fato de o conteúdo do vaso é mais importante que seu recipiente. Isaac Bashevis Singer foi o ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1978 e, em seu discurso, mencionou o trágico mundo de uma sociedade profundamente moral e pia, cruelmente extinta pelo holocausto nazista. Considerado pelos críticos como um dos cem melhores livros de literatura do século XX, Satã em Gorai é o primeiro romance de Singer. Judeu, nascido na Polônia, foi obrigado a deixar seu país e mudar para os Estados Unidos quando percebeu que o anti-semitismo e o nazismo estavam crescendo na Europa. De acordo com Singer (1992, p. 130) Gorai se permitiu toda espécie de licenciosidade, tornando-se mais corrupta a cada dia que passava. Convencida de que cada transgressão era um degrau na escada da auto-purificação e da elevação espiritual, a gente de Gorai desceu aos quarenta e nove portões da impureza. Ao ler esta parte do livro, fiquei me perguntando se o autor não estava descrevendo a sociedade brasileira usando apenas outro nome. E é fácil perceber que a população não acredita mais no estado de direito e já perdeu a pouca fé que ainda tinha nos políticos. Se o voto fosse facultativo, poucos compareceriam para votar. Singer acredita que todos que possuem o hábito de enganar e seduzir a população, só conseguem ludibriar o povo porque se fazem passar por pessoas de bem. Mas o autor não faz apenas uma constatação, ele também critica os poucos eruditos que sobraram na sociedade e que vivem fingindo não ver nem ouvir o que esta acontecendo. Como diz Umberto Eco no seu livro Apocalípticos e Integrados que o silêncio não é sinal de protesto, mas de cumplicidade. As obras de Singer trazem nas suas entrelinhas uma ironia sutil. Satã em Gorai foi publicado inicialmente em forma de folhetim e é uma reflexão profunda sobre a fragilidade humana. A história se passa numa aldeia onde seus habitantes se defrontam diariamente com o sagrado e o profano. O AUTOR Isaac Bashevis Singer nasceu em 1904 na pequena cidade de Radzimin, na Polônia e é considerado o grande retratista da saga judaica. O início do livro é avassalador e logo no segundo parágrafo de abertura Singer (1992, p.13) explica a decadência humana da seguinte forma: os haidamaks massacravam a torto e a direito, esfolavam vivos os homens, trucidavam as crianças de colo, violentavam as mulheres e depois rasgavam-lhes o ventre e costuravam gatos dentro. Afinal, quem são os haidamaks contemporâneos? Como está nosso local de oração e de estudo? Continuamos vendo todos os dias mulheres sendo violentadas, crianças sendo torturadas e assassinadas. A cada dia que passa o estado se compromete menos com a saúde, educação e segurança dos cidadãos comuns e por isso, cada um luta como pode pela própria sobrevivência. Diariamente vemos as pessoas se tornando escravos sem dono fixo lutando pela vida mesmo que para isso seja preciso empenhorar ou vender a própria alma... DICA: SINGER, Isaac B. Satã em Gorai. São Paulo: Perspectiva, 1992. *Jacir Alfonso Zanatta é jornalista e colabora com o DC Ilustrado