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Cuiabá MT, Terça-feira, 16 de Agosto de 2022

ILUSTRADO
Sábado, 06 de Agosto de 2022, 00h:00

GOVERNO BOLSONARO

Documentário "Quem Tem Medo" investiga a censura em escalada sob Bolsonaro

Filme acompanha artistas que foram perseguidos e ameaçados e como discurso contra as artes foi parar na máquina pública

CAROLINA MORAES
Da Folhapress - Brasília
Jair Bolsonaro

Era 2017, um ano antes de Jair Bolsonaro assumir à presidência, quando o artista Maikon Kempiski foi preso em Brasília no meio de uma mostra teatral. Enquanto apresentava "DNA do DAN", em que ficava nu dentro de uma bolha com um líquido viscoso que resseca a pele, ele foi detido pela polícia e acusado de ato obsceno.

"Há algo simbólico nesse caso que é o guarda da esquina da ditadura. Esse guarda que se sente no direito de encerrar uma apresentação, de prender um artista", diz o diretor Henrique Zanoni. "O que a gente traça no documentário 'Quem Tem Medo' é como isso veio das ruas e invadiu a Câmara dos Deputados, o Senado." Ou seja, invadiu o Estado.

Zanoni dirige o documentário, que esteve no festival É Tudo Verdade e chega aos cinemas nesta quinta-feira, ao lado de Ricardo Alves Júnior e Dellani Lima. O último trabalhava com o grupo A Motosserra Perfumada, que viu seu espetáculo "Res Publica 2023" ser censurado quando Roberto Alvim comandava o centro de artes cênicas da Furnarte, a Fundação Nacional de Artes.

Foi a partir desse caso que todo o material do filme, que acompanha outros cinco casos de cerceamento às artes nos últimos anos, começou a ser produzido.

Como os diretores mostram já no começo do longa, trabalhos artísticos já eram interrompidos por discursos moralistas antes de Bolsonaro subir ao poder. Mas, na visão deles, o que o filme traça é que esses ataques, antes parte de uma plataforma de campanha de uma série de candidatos, agora fazem parte da máquina pública.

A escalada da censura é visível quantitativamente. Eles se valem de dados levantados pelo Mapa da Censura que mostram que, de 2016 a 2018, foram 16 casos desses no Brasil. Já de 2019 até fevereiro deste ano foram 220.

Houve momentos em que um artista chegou a levar pedradas no meio da apresentação, caso de José Neto Barbosa. Uma atriz viu um deputado pedir para que ela fosse degolada, caso de Renata Carvalho. Um coreógrafo foi ameaçado de morte depois de ser equivocadamente acusado de cometer pedofilia, caso de Wagner Schwartz.

São episódios que alimentam essa lista cada vez mais extensa de ataques à liberdade de expressão artística no Brasil, mas que geram traumas bastante individuais em cada um deles. Essa dimensão pessoal, de artistas que não se sentem aptos a criar no próprio país, ou que tinham medo da ronda policial que tomou conta das apresentações, são esmiuçadas em entrevistas com os próprios atacados —e parte das obras cerceadas também são apresentadas na filmagem.

Enquanto as imagens que circularam da performance "La Bête", de Schwartz, era de uma criança tocando seu pé, o documentário exibe uma longa cena de pessoas manipulando o corpo do coreógrafo. Era a proposta do trabalho, apresentado no mundo inteiro, em diálogo com os "Bichos", estruturas manipuláveis da artista Lygia Clark.

"A gente busca fazer este contraponto entre que tipo de estética que esses artistas fazem circular e que tipo de estética esses políticos extremistas fazem circular. Se, de um lado, a gente tem a Renata pensando no amor, o deputado e pastor Sargento Isidório está mandando degolar ela", afirma Dellani Lima.

Eles mostram a cena em que o então deputado federal Laerte Bessa, do PL, por exemplo, diz no plenário da Câmara que direitos humanos se resumem a um pedaço de pau ao comentar a exposição "Queermuseu", outra acusada de promover a pedofilia.

É um discurso que o próprio Jair Bolsonaro reforçava no Congresso quando era deputado e fez apologia do estupro e da ditadura militar ao elogiar um torturador. Segundo Zanoni, o diretor, é como se uma corda fosse sendo esticada, até que isso se rompesse e o intolerável se tornasse aceitável.

"O foco principal é o corpo e o universo LGBTQIA+, também muito atacado. Os artistas são usados de modo absolutamente pensado, porque esse pânico moral, do medo, e dessa violência vem através do uso desses artistas", diz ele. Ainda que as imagens de discursos tenham como palco a capital federal, os diretores afirmam que acharam muitas outras falas similares em câmaras municipais.

Esse estrangulamento que as artes visuais, cênicas e outras já sofreram antes das eleições presidenciais de 2018, segundo os diretores, se espalhou para todo lugar. Está nos desmontes de instituições como o Inep, dos órgãos de ciência e meio ambiente, das universidades, e até no assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips no Vale do Javari, num ataque aos direitos humanos.

Há ali nos atos do artista também uma resposta a esses ataques, como quando Renata Carvalho afirma que mexeram com a pessoa errada. Ela, como travesti, disse que já foi tirada de todos os lugares. Mas que do teatro ela não seria retirada.

Ainda assim, o trabalho também parece querer apontar para uma censura, digamos assim, mais sofisticada. "A gente não pode cair nessa de que a censura do Estado será como antes, em que um departamento pegava uma música do Chico Buarque e a proibia. A censura não será mais na canetada, ela virá de muitas maneiras", defende Ricardo Alves Júnior.

Ela estaria, portanto, na extinção do Ministério da Cultura, na diminuição do financiamento do setor, na escalação de um policial militar para selecionar incentivos fiscais a projetos. Ou até num jogo léxico, como numa das cenas com Roberto Alvim, que foi exonerado depois de protagonizar uma peça publicitária do governo com referências ao nazismo.

Numa live com Bolsonaro, os dois comentavam a censura à peça "Caranguejo Overdrive", no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro, que o Ministério Público Federal inclusive disse que foi feita "sem qualquer embasamento constitucional ou legal". Ele fala ao presidente "não, capitão, não é censura". "Isso se chama curadoria."

 

QUEM TEM MEDO

Classificação 14 anos

Produção Brasil, 2022

Direção Dellani Lima, Henrique Zanoni e Ricardo Alves Jr. 


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