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Cuiabá MT, Sexta-feira, 24 de Junho de 2022

ILUSTRADO
Sexta-feira, 24 de Junho de 2022, 00h:00

ARTE

Documenta de Kassel tem boate fetichista e creche para mostrar extremos do mundo

Maior exposição de arte do planeta, na Alemanha, reúne trabalhos sobre o esforço pela conquista justa de um território

SILAS MARTÍ
Da Folhapress - Kassel, Alemanha
Documenta de Kassel

Na porta da festa, uma garota logo avisa que o evento da noite é para negros, pessoas trans, antirracistas, antifascistas, queer e sadomasoquistas. Não existe lista VIP, e os aventureiros ou desavisados na fila precisam concordar com as regras da boate ou dar meia volta no ato.

Lá dentro, luzes vermelhas indicam os muitos caminhos da perdição fetichista, um labirinto no porão de um velho bar de Kassel, a pequena cidade alemã que desde a década de 1950 monta a cada cinco anos a Documenta, a maior mostra de arte do mundo.

Uma sala tem todos os acessórios de couro imagináveis, para amarrar e chicotear, outra tem pequenas jaulas que imobilizam quem gosta de gozar sentindo dor, como diz um dos letreiros nas paredes. A mais light tem um balanço, outra ostenta uma mesa de massagem com algemas.

O espaço de "prazer radical", idealizado nesses termos pelos artistas do coletivo indiano Party Office, é antes de tudo um espaço. Durante o dia, está aberto a curiosos que só imaginam o que pode rolar ali. À noite, até onde foi possível ver, nada de mais acontece. É uma boate fake, alegre até, mas sem esse toque tão radical prometido.

Esse é o problema bem no coração desta 15ª Documenta —muita conversa, muito cenário, muitas boas intenções para quase nada de concreto se materializar diante dos olhos.

Liderada por outro coletivo, o Ruangrupa, da Indonésia, essa é uma das edições mais sem clímax da mostra alemã dos últimos tempos, mesmo num mundo para lá de catastrófico, apocalíptico e tal e tal.

Sem rodeios, o time à frente do mais cobiçado festival da arte global, que vai até o fim de setembro, é um grupo de artistas e ativistas que defende o pensamento em conjunto, o ócio do encontro, o dolce far niente, digamos, turbinado por conversa jogada fora na mesa de bar e muito desejo por justiça e paz num mundo corroído por guerra, pandemia, ameaças autoritárias —em resumo, o planeta tal e qual conhecemos desde os primeiros gemidos no berço.

Tanto é que o mesmo evento que eleva à categoria de arte uma boate cenográfica também achou por bem montar uma creche na ala mais nobre do Fridericianum, o museu neoclássico no centro de Kassel que serve de pavilhão principal da coisa toda. O bem-estar coletivo, de fato, estava na ordem do dia, dos bebês aos que curtem a submissão total no sexo.

Está tudo bem, só que não. O discurso ingênuo e colorido, marca de uma crescente onda neo-hippie que contamina a arte contemporânea com a crença de que os problemas do mundo serão todos resolvidos no fino trato e na conversa fiada, desarma todo o poder de fogo dessa mostra.

Tudo é um vir a ser que não será jamais, e o público enfrenta sala atrás de sala, galeria atrás de galeria vazia —são mais de 32 espaços, de museus e parques a uma piscina, uma igreja e fábricas abandonadas por toda a cidade— onde algo deve em algum momento acontecer e mudar a história, mesmo que ninguém veja.

Ruangrupa, grupo que já participou da Bienal de São Paulo montando uma espécie de rádio clandestina que fazia as suas transmissões a partir de uma barraca de acampar no pavilhão do Ibirapuera, tomou o seu nome das palavras em indonésio para "espaço de arte" —a sensação, no entanto, é que muitas vezes parece ter sobrado espaço e faltado arte na atual equação em Kassel.

É certo que a quebra de expectativa pode ser radical sozinha, o esvaziamento da mostra de arte como expurgo de um mundo há muito rendido aos caprichos do mercado e objetos-fetiche que se tornam decoração de iates de oligarcas. Mas a mostra atual roça o limite entre a ousadia despojada e o quase engodo panfletário.

Artistas são imunes à desilusão e iluminam os caminhos, ou ao menos isso é o que esperamos deles em sociedades perdidas como a nossa. Mas a Documenta atual expõe mais a fragilidade de um sistema circense da arte, o mundo colorido vislumbrado por qualquer centro acadêmico, do que arte que aguça o olhar. Pelo contrário, muita coisa chega a doer mesmo na vista no choque do encontro.

Mas, bobagens à parte —e há muitas armadilhas nesta Documenta—, o resumo da história é o desejo evidente pela justa conquista de um território.

No meio da Friederichsplatz, a praça central de Kassel, o artista australiano Richard Bell armou uma tenda que batizou de embaixada aborígine. Do lado de fora, cartazes estampavam frases como "queremos terra". Dentro do Fridericianum, suas pinturas são visões saturadas de protestos por direitos civis pelo mundo, entre elas a marcha dos americanos com estandartes dizendo o óbvio então não óbvio aos mandatários —"eu sou um homem".

Talvez a visão mais marcante desta Documenta, aliás, seja a presença de barracas e tendas espalhadas por toda a cidade, dos pavilhões mais sinistros aos fofos. É uma imagem tornada mais perturbadora pela invasão das tropas russas sobre a Ucrânia que não cessa, com ou sem arte contemporânea.

Além de Bell, a dupla chinesa Cao Minghao & Chen Jianjun armou uma barraca com um filme alertando para a escassez de água num planeta em crise no gramado verdejante do Karlsaue, o maior parque de Kassel. Logo ao lado, o coletivo Cinema Caravan montou tendas de madeira, uma delas uma sauna improvisada entre véus brancos.

Perto dali, o grupo queniano Nest Collective armou outra barraca diante de montes de roupas descartadas com trabalhos que atacam a indústria da moda por todo o desperdício causado por temporadas e temporadas nas passarelas.

Os também quenianos do Wajukuu Art Project transformaram o Documenta Halle, um pavilhão modernista todo de vidro, num barraco típico da favela de Lunga Lunga, onde o grupo surgiu na periferia de Nairóbi, com chapas de metal corrugado, fios desencapados e luzes piscantes.

O gesto de força maior nesta Documenta, sem dúvida, é desenhar e demarcar o espaço almejado, e tal espaço da arte, na visão do Ruangrupa, pode ao mesmo tempo muito bem se ver livre dela. Da boate só para negros e trans a sonhos idílicos de um mundo sem deslocamentos forçados, censura, misoginia, racismo e violência generalizada, a mostra alemã se consolida como um panorama dos despossuídos, um grande muro de lamentações.

São trabalhos que às vezes berram, às vezes sussurram. Toda uma ala do Fridericianum mostra obras de artistas descendentes de povos nômades da Europa, da polonesa Malgorzata Mirga-Tas, que ocupa o pavilhão de seu país agora na Bienal de Veneza, aos húngaros Tamás Péli, János Balázs e Mara Oláh, a austríaca Ceija Stojka e os britânicos Damian Le Bas e Daniel Baker.

O grande pivô da discórdia, que levou a Documenta às manchetes das páginas de polícia dos jornais alemães com acusações de antissemitismo por parte de seus organizadores, também tem as raízes fincadas numa disputa por terra.

Obras do artista palestino Mohammed Al Hawajri despertaram a ira da direita alemã que viu em suas alegorias sobre o conflito com Israel um ataque aos judeus. Suas fotomontagens da série "Guernica Gaza" misturam pinturas clássicas ocidentais, como a família de camponeses retratados por Van Gogh ou o casal que voa pelos ares de Chagall, com cenas de guerra, bombardeios e soldados sempre à espreita.

O debate —ou falta dele, já que um encontro marcado pelos organizadores da Documenta acabou sendo cancelado diante do clima de tensão— não avançou. E no fim parece não ter passado de um soluço na montagem da exposição.

Outro gesto de ocupação, bem mais iconoclasta que a série um tanto ingênua de Al Hawajri, é a tomada de uma igreja católica pelo coletivo haitiano Atis Rezistans, num dos pontos mais impressionantes da Documenta. Lá dentro, a imagem da Virgem surge rodeada de comprimidos para todos os males, soldados de sucata ostentam falos enormes na conquista da nave, carrancas de garras e dentes afiados tomam o lugar dos apóstolos.

Esse bestiário profano, tropa de choque nascida do tumulto nas estranhas que parece marcar o mundo atual, quebra o coro de esperança de grande parte da mostra de coletivos do bem, como se no escancarar das vísceras mostrasse que muitos pesadelos ainda vão atormentar os sonhos.

Longe da estridência, um trabalho parece juntar as duas pontas do espectro desta Documenta. Debaixo da terra, no porão de uma velha fábrica de partes automotivas, o indiano Amol K Patil espalhou enormes caixas de terra no formato de mapas, lugares por onde um intocável vagou tentando encontrar sustento.

O murmúrio de rádios é a trilha sonora do espaço na penumbra e restos de uma anatomia fantástica —aros cheios de dentes, mãos com dezenas de dedos, rostos com narizes esticados, pés achatados— rodeiam essas covas rasas que poderiam também ser hortas.

nem morto.

 


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