ILUSTRADO
Terça-feira, 12 de Dezembro de 2006, 19h:57
A
A
SENHA
Corra que ainda dá tempo
Lorenzo Falcão
Da Editoria
Os americanos são imbatíveis em cenas de ação. Dominam a alta tecnologia e todos os macetes necessários para deixar o espectador sem fôlego. Correrias, perseguições, lutas, explosões, tiroteios e até as artes marciais são exploradas com requinte no audiovisual do Tio Sam. Mesmo os cinéfilos apreciadores de filmes que tendem mais para abordagens dramáticas, filosóficas e psicológicas, de vez em quando, costumam se render ao cinema onde a palavra chave é adrenalina. E esse é o nome do filme que reporto aqui. E recomendo. Segundo informações da gerência do Cinemais, permanece em cartaz pelo menos até a próxima quinta-feira. Algumas informações sobre esta produção de 87 minutos são bastante curiosas. A dupla que escreveu o roteiro e dirigiu o filme, Mark Neveldine e Brian Taylor, começou a carreira cinematográfica como dublês, o que já justifica a ação vertiginosa. E também foram cameramen em algumas cenas do eletrizante Adrenalina, título que marca a estréia deles nessa função divina, já que o diretor é alguém que brinca de ser Deus. E o fazem com o pé direito. Outra coisa que tem a ver com a boa qualidade do filme é a atuação contagiante do ator principal, o inglês Jason Statham. Ele é um matador profissional, Chev Chelios, envenenado por uma substância que vai matando-o aos poucos, sendo sua única opção, a busca desenfreada de efeitos adrenalizantes para que seu coração continue a bater. Até o toque de seu celular parece coisa de um aparelho com bateria decadente. Jason Statham ingressou para o cinema através do diretor britânico Guy Ritchie (aquele, da Madonna), que não costuma selecionar o elenco de seus filmes por meio dos currículos. Ritchie opta por figuras cults, às vezes marginais mesmo. Statham, que foi atleta (mergulhador olímpico) e modelo, e teve experiência com teatro de rua no submundo londrino, caiu como uma luva para o cineasta britânico. Mas a revelação de Statham para a poderosa indústria cinematográfica se deu com sua participação em filmes americanos como O Confronto, Carga Explosiva e Fantasmas de Marte. Bom, de volta a Adrenalina, sugiro que, para um sujeito cuja profissão o faz transitar no limiar entre a vida e a morte diariamente, imagina-se que não seja fácil consubstanciar fórmulas e artifícios que lhe acentuem os efeitos emocionais. Daí que Chev, o matador que está morrendo, precisa de drogas, sexo e violência para continuar vivo. Sua bela namorada, Eve (Amy Smart, de Efeito Borboleta), pode ajudá-lo a prolongar um pouco a vida. Seja fazendo transando no meio da rua num bairro oriental com uma multidão olhando, seja fazendo sexo oral enquanto ele dirige em disparada fugindo de seus antagonistas. Com uma bela trilha sonora quase toda baseada na música eletrônica (e um interessante revival da trilha do ótimo Perdidos na Noite), Adrenalina é um filme que pasteuriza a violência e se revela desenvolvimento que sua edição dá à sutileza e riqueza dos detalhes. Imagens de satélite se intercalam quando a geografia do roteiro assim exige. Em meio à correria desenfreada há espaço para dois jabutis transando. Belas mulheres gritam dentro de círculos transparentes. O filme lembra um grande videoclipe. Há um humor nervoso e a platéia corresponde com breves espasmos e comoções. Um simples piscar de olhos pode acarretar perdas ao espectador mais desavisado. A película é tudo isso e muito mais. Já estou ansiando pelo próximo filme da dupla Neveldine/Taylor. Fico com a impressão de que esta experiência fílmica que absorvi mexeu muito comigo. É claro que gostei, apesar da sensação de estar caindo de um helicóptero quando ainda dá tempo para fazer uma ligação do celular. Será que o personagem de Jason Statham morre no final?