ILUSTRADO
Sábado, 26 de Julho de 2008, 13h:13
A
A
CRÔNICA
Coisas como uma lembrança tatuada na memória
A paisagem da pedra do Leme no Rio de Janeiro é personagem constante no imaginário da cronista e colaboradora deste caderno, radicada no bairro do Baú
Valéria del Cueto*
Especial para o Diário de Cuiabá
Chove a cântaros lá fora. Logo depois do viaduto, num prédio gigantesco em final de construção, vejo uma cachoeira formada pela calha da marquise. Fico tentada a tomar um banho de chuva. É muita água. O suficiente para me fazer desligar o computador, que não tem estabilizador, com medo de uma queda de energia provocada pelos raios e trovoadas que batem boca no calor da tempestade. Meu primeiro reflexo proseador me leva ao fato de que este tipo de chuvarada não orna com esta época do ano. Mas já vi que não há nada de preocupante no acontecimento, pelo menos para quem não está nem aí para o significado das alterações climáticas atuais. Esta é a contramão da história e, nela, pilotam o bólido da falta de cuidado e do descaso ambiental... Estou paralisada. Hoje é um dia especial, assim como é especial o significado do evento que aguardo. Pronto. Lá se foi o sinal da TV. Fico imaginando o que mais pode acontecer. Sem TV, sem computador ou internet, com um dilúvio ocorrendo - ou melhor - escorrendo do lado de fora, enquanto espero. (Só me resta de consolo o fato que tudo é passageiro, menos o trocador). Isso mesmo. Espero um aviso da chegada de um fax liberatório de um cartório co-irmão para, finalmente, receber uma escritura. Minhas dificuldades sempre foram burocráticas. Elas correspondem a exatamente 20 anos de incompetência. Minha incompetência, reconheço. Elas, as dificuldades, podem ser encerradas até às 18 horas de hoje se o tal fax se materializar. Caso contrário, serei novamente vencida pelos deuses autoritários dos trâmites do Incra, cartório, Ibama e da Receita Federal, não necessariamente nessa ordem... Se não for hoje só encontrarei o que procuro, no caso, meu procurador, daqui a mais de um mês, graças a inúmeros compromissos assumidos por ambos fora de Cuiabá. Ele é um santo, o procurador e, acho, nunca pensou que eu fosse me enrolar tanto nas idas e vindas normalmente feitas por despachantes que despacham e não a lei de Murphy ambulante que vos fala. Fico imaginando (mas não muito) o que mais pode acontecer. Se hoje, finalmente, quebrarei esta escrita de vinte anos. (não é um trocadilho, viu, gente?) Enquanto espero, escrevo e, nessas linhas, aproveito para registrar este momento histórico. Não por opção, reconheço, mas ao contrário, por falta total de qualquer outra atividade disponível no meu vasto minifúndio, além de escrever e ouvir o barulho da chuva e o som dos carros e caminhões que circulam pelo asfalto molhado do viaduto que fiscalizo das minhas janelas do terceiro andar. Detalhe: Chova ou faça sol, esteja onde estiver, hoje é sexta feira e são três e meia da tarde, horário destinado ä contemplação, inspiração e prazer na Ponta do Leme, Rio de Janeiro, seja qual for o lado do vento e a viração vigente. É a lembrança tatuada na minha memória do meu porto seguro que me faz capaz de transformar esta espera chuvosa no texto quase molhado que você lê... *Valéria del Cueto é jornalista, cineasta e gestora de carnaval Este artigo faz parte da serie Parador Cuyabano http://delcueto.multiply.com