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ILUSTRADO
Segunda-feira, 06 de Junho de 2011, 21h:15

INTERAÇÃO

Cantar espanta males

Oficina vocal de quatro dias e uma apresentação em show selaram grande amizade envolvendo Simone Guimarães com Cuiabá

Martha Baptista
Da Reportagem
Durante cinco dias, Cuiabá acolheu dois músicos singulares, cujo talento é reconhecido por seus pares e críticos no Brasil e exterior. Nessa curta, porém intensa temporada cuiabana, a cantora e compositora Simone Guimarães e seu parceiro Novelli conviveram com músicos profissionais e gente que simplesmente ama a música durante uma oficina de técnica vocal ministrada por ela no Sesc Arsenal. Os artistas se encantaram com a arte de jovens talentos como Estela Ceregatti, Juliane Grisólia, Jhon Stuart, Ebinho Cardoso e Joelson Conceição (o veterano Novelli o comparou a Rafael Rabello, violonista que morreu aos 33 anos, mas é considerado um dos maiores de todos os tempos). Visitaram o bar Choros & Serestas (o popular Chorinho) e assistiram ao lançamento do CD “Cirandando” de Vera Capilé (Simone subiu ao palco para cantar “Botocuxi”, música de sua autoria e de Ana de Hollanda incluída no CD). No sábado, brindaram o público do Sesc Arsenal com o show “Sangue latino”, que contou com a participação de Estela e Juliane e de um coral formado por integrantes do Sesc Canta e do Madrigal do Avesso – regidos pelo maestro Carlos Taubaté. O coro, integrado por alunos da oficina de técnica vocal, foi convocado para cantar uma composição de Simone e Novelli, “Janaína meu canto de guerra”, e “Cio da Terra”, de Mílton Nascimento e Chico Buarque de Hollanda. Deixaram saudades, ensinamentos e posicionamentos – alguns deles registrados em entrevista ao Diário de Cuiabá, onde revelam uma posição crítica, porém cheia de esperança e poesia, como convém aos artistas. Confira alguns trechos: Simone Guimarães, 44 anos, cantora e compositora paulista, atualmente radicada em Brasília, já foi indicada ao Grammy, o Oscar da música, e tem vários álbuns gravados. Embora seja uma cantora popular, reconhecida por intérpretes como Milton Nascimento, Simone foi buscar suporte no canto lírico que estudou por quase 13 anos: “É importante ter técnica no canto porque te dá segurança e você sabe que está cantando com profissionalismo”. Apaixonou-se tanto que ficou o desejo de fazer um show de modinhas imperiais, cantando composições de Cláudio Santoro, Heitor Villa-Lobos, Guerra Peixe, Alberto Nepomuceno e Jaime Ovalle, com letras de Manuel Bandeira e Vinícius de Morais. “É uma coisa que ainda faz falta no Brasil: esse registro dos nacionalistas. Quem se envolve com a cultura brasileira, esbarra na beleza. O Brasil é rico em tudo. Eu me apaixonei pelo canto lírico, especialmente por essa obra dos nacionalistas”, revela. Ela acredita que o preconceito contra a ópera no Brasil é fruto da falta de conhecimento e de hábito, embora o país tenha tido um núcleo operístico em Vila Rica, Minas Gerais (atual Ouro Preto): “A gente não foi para frente nessa coisa da cultura, pelo contrário, retrocedeu muito e, onde habitava uma sinfonia, hoje habita uma música de três acordes. Precisamos retomar essa época, por isso meu desejo de gravar um disco de modinhas imperiais para informar. Mas acho que o Brasil perdeu um pouco o trem da história. Estamos muito atrasados e não sei se vamos recuperar o tempo perdido, mas não custa tentar”. Simone, que durante a oficina em Cuiabá disse ter “ouvido de cachorro” (hiper sensível a ruídos), contou que em casa ouve “os clássicos, o nosso bom Vinícius de Morais, o nosso Novelli, meu parceiro, e muita música regional”. Ela não acompanha a preferência da maioria das pessoas, que não tem acesso à informação musical, nem condições de comprar discos, só escuta rádio e assiste à TV. “Você quer saber o que meu ouvido sente? Ele sente politicamente. Não tenho mágoa das pessoas que não ouvem música boa porque elas não aprenderam isso. Então eu quero mais é chegar a essas pessoas e dizer: olha, eu estou aqui. Quem quiser me conhecer vai ver uma pessoa sem amargura porque a minha sorte é, pelo meu dom, poder me aproximar das canções. Agora quem não tem esse dom e não se aproxima das coisas que o Brasil tem não conhece o Brasil. Eu fico com pena porque o Brasil é tão lindo!” Ela lamenta que grande parte dos brasileiros não tenha acesso à música de compositores como Chico Buarque de Hollanda, Tom Jobim, Novelli, Milton Nascimento e outros integrantes do lendário Clube da Esquina, que beberam na fonte de Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, dos negros, do impressionismo francês de Debussy e do núcleo operístico de Vila Rica. “A música brasileira ficou muito rica. Só que ela é fragmentada, por isso ninguém tem todo o conhecimento da música por causa dessa massificação da televisão e do rádio, mas o Brasil é lindo. ‘O Brasil não conhece o Brasil’, como bradou Ellis (a cantora Ellis Regina, na música “Querelas do Brasil” de Maurício Tapajós e Aldir Blanc). Então acho que o Brasil tem que se conhecer. É só ter espaço e a informação que o brasileiro gosta”, afirma Simone. CAPITALISMO SELVAGEM Simone atribui à ditadura militar e ao “capitalismo selvagem” implantado no país nas décadas seguintes o empobrecimento cultural e a ruptura com um processo evolutivo que ocorria na música brasileira até o final dos anos 70. “Eles não precisavam fazer uma ditadura aqui. A Austrália é capitalista e nem por isso as pessoas deixam de ter acesso à boa música, de ter uma boa moradia, uma boa medicina. O capitalismo no Brasil é muito selvagem mesmo. Nós fomos massacrados culturalmente. Falam que os índios estão acabando, mas tem muito mais índio do que música popular brasileira. Índio e nós é a mesma coisa. Por que não se preserva a música brasileira, não se preserva o Chico Buarque? Tem gente que não sabe quem é”, protesta Simone. Ela vai fundo em sua críticas. “Acho que o Supremo (o Supremo Tribunal Federal) está muito enganado de anistiar esse pessoal que participou da ditadura, eles não são bonzinhos. São pessoas más, que torturaram artistas, intelectuais que poderiam ter salvado o Brasil da imbecilidade em que ele está hoje. A gente tem uma democracia que não funciona num país de gente semi-analfabeta. (...) As políticas vêm, a gente pensa que vai mudar, mas como mudar essa imagem do que eles fizeram com a gente? Nascida em 1966, a artista conta que sentiu na pele o empobrecimento cultural imposto pela ditadura: “Quando eu estava na quinta série, tiraram filosofia, francês e o latim do currículo escolar. Fiquei só com o inglês. Eles foram tirando da gente a informação e empobrecendo financeiramente o país. O PIB aumentava, a renda per capita abaixava e os bancos enriqueciam. Fizeram um capitalismo selvagem porque fomos aculturados, pisados”. A NECESSIDADE DO CANTO Simone não perde a esperança e deixa um recado para quem trabalha com música, especialmente, com o canto em Mato Grosso, ou canta por prazer: “Continuem cantando. O canto é uma coisa linda. Quando a gente está em contato com o canto, é capaz de estar em contato com outras milhares de coisas. Cantar é necessário como respirar e brincar”. Segundo ela, “se tirassem cinco imbecis fanáticos do poder, pessoas que dirigem as grandes gravadoras do país, que estão interessadas apenas em dinheiro, ou seja, no capitalismo selvagem”, seria possível ter discos de madrigais e corais religiosos mais amiúde. “Teríamos audição nas igrejas, poderíamos abrir as igrejas para concertos de piano. Só vejo isso acontecer no Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro. Os beneditinos, os monges têm cultura. O europeu que vem para o Brasil faz um movimento desses, mas o brasileiro não tem essa iniciativa. Por que? Porque não tem conhecimento. Então do que a gente precisa neste momento? Além de nos livrar dos dirigentes das grandes gravadoras que nos roubam junto com o Ecad, esse pessoal que está influenciando os jovens, precisamos parar de ter medo de fazer a política consequente - uma política que vai trazer a verdade para o Brasil. As pessoas precisam parar de ter vergonha de mudar. As mudanças geram muito medo por causa da ditadura”. Para Simone, é hora de trabalhar. “O Brasil precisa de gente que esteja a fim de dar aula, de cantar, de levar informação. O Brasil precisa crescer muito. A gente podia ter crescido na época da ditadura, mas estamos muito distantes do que é a visão de mundo perfeito, com igualdade social. Eu acredito no Brasil. A gente precisa de um país mais equânime, mais justo.” (Leia na página 3 sobre Novelli, músico que acompanhou Simone a Cuiabá)

Edição EDIÇÃO 16958




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