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ILUSTRADO
Terça-feira, 02 de Outubro de 2007, 11h:32

ENTREVISTA

Cada dia mais cuiabano

O violoncelista inglês David Gardner, da Orquestra de Câmara de MT, explica as razões que tem pra ficar e gostar daqui

Lorenzo Falcão
Da Editoria *
David Eduard Gardner é uma das peças principais da Orquestra de Câmara de Mato Grosso. Ele é ingles, mas mudou-se para Cuiabá antes mesmo da Orquestra se formar oficialmente. Tem viajado com a Orquestra por praticamente todas as regiões de Mato Grosso. Pode se dizer que juntamente com o maestro Leandro Carvalho, foi o primeiro a vestir a camisa dessa empreitada cultural que, diga-se de passagem, é a que mais tem promovido a integração deste estado de dimensões continentais. Como se não bastasse o êxito nessa iniciativa profissional, quis o destino que mister Gardner encontrasse pelo menos mais um motivo para fincar o pé por aqui. Essas coisas que acontecem no coração da gente. Conheceu e casou-se com a cuiabana de família tradicional, Cristiane Arruda Espírito Santo Gardner Na entrevista abaixo o músico, cuja formação e carreira professional já pontuaram em importantes instituições européias, fala sobre sua vida cuiabana, sobre a música brasileira e a regional e aborda outros assuntos pertinentes. David, ao que tudo indica, está migrando de naturalidade. Cada vez mais papa-peixe e menos londrino. Como foi e com quantos anos se deu a sua iniciação musical? Houve alguma influência familiar ou de alguém muito próximo? R:Desde os 5 anos. Meu avô foi saxofonista e tocava Jazz. Você está em Cuiabá desde 2005, depois de já ter conquistado espaço no acirrado mercado europeu da música. O que aconteceu para que sua vida desse essa guinada tão radical, ao ponto de deixar Londres e mudar-se pra Cuiabá? R: Eu estava procurando uma nova perspectiva musical, querendo passar minha formação musical voluntariamente ao mesmo tempo queria aprofundar meu conhecimento sobre a música brasileira. Por já estar aqui há mais de dois anos, deduzo que esteja gostando. Poderia mencionar algumas características regionais que o fizeram 'fincar' o pé por estas bandas? R: A alma das pessoas, a receptividade, a aceitação do público, os pontos turísticos maravilhosos e a oportunidade de deliciar um bom churrasco todo final de semana tomando aquela cervejinha bem gelada. Por outro lado, você deve sofrer com o calor brabo da terra e deve pintar, volta e meia, uma certa saudade de Londres. Como você contorna essas questões? R: Londres é frio, cinza e chove todos os dias, não tenho saudades da cidade. Acho que a Cristiane também é um motivo forte que te prende aqui. Fale um pouquinho sobre como você a conheceu e como é a participação dela na sua jornada por terras pantaneiras. R: Sim, ela é um dos motivos fortes. Eu estava fazendo um trabalho voluntário no Projeto Ciranda Música e Cidadania quando a conheci foi um encontro que mudou radicalmente a minha vida, a Cris me apóia muito e sempre me acompanha na minha jornada de trabalho, ela tem muito orgulho de mim e posso dizer que é minha fã nº 1. Muita gente que vem pra cá vai ficando, ficando... E acaba se tornando cuiabano ou quase isso, por adoção. Porque existem os 'paus rodados', aqueles que só estão de passagem, e os 'paus fincados', aqueles que ficam. Você, me parece, está se encaixando na segunda categoria (pau fincado). É isso mesmo? R: É isso mesmo, quando cheguei aqui no Brasil eu tive a impressão de que já conhecia, após 30 minutos já estava dizendo para os meus amigos “Eu vou ficar aqui”, senti naquele momento que meu coração tinha uma parte da América do Sul. As músicas brasileira e regional têm origem diversa e nasceram de uma latente profusão de ritmos e sons. Na Orquestra, você tem se esbaldado com essa diversidade sonora. Diga-nos quais são, ao seu ver, as características mais marcantes dessa musicalidade brasileira e compare-as com a música européia, onde fundamenta-se a sua formação. R: A música brasileira é para mim a expressão melódica da língua portuguesa. Quanto mais aprendo o português mais eu compreendo sobre os ritmos e melodias brasileiras. A música britânica está mais próxima da associação entre a harmonia e uma introspecção melódica da composição. Em todas as formas da música britânica existe um jeito introspectivo. A música brasileira é um pouco o contrário disso. Eu nunca deixei de admirar o efeito que a música produz nos brasileiros. Aqui em MT, perto da fronteira com a Bolívia e o Paraguai há uma fusão fantástica de estilos. Para mim, Rasqueado, Siriri e Cururu, Sertaneja e Lambadão têm uma coisa em comum: alegria. Uma coisa que admiro muito no povo brasileiro. No repertório da Orquestra há pérolas das músicas brasileira e mato-grossense. Fale de algumas composições que você interpreta e que te dão um prazer especial. R: Meu gosto musical é eclético. Eu amo música clássica, jazz, house, rock, MPB, tudo que eu posso encontrar. Na orquestra temos um equilíbrio bom entre clássicos tradicionais e música popular. Meus favoritos na música brasileira são Frevo, Baião e Rasqueado. Para mim, estes três estilos representam tudo o que o Brasil é para mim. Vivo, alegre, auto-confiante, cheio de vigor e mais do que tudo virtuoso. Eu passei muito pouco tempo no Nordeste brasileiro, mas o que eu encontrei lá foi uma cultura rica e diversificada fortemente baseada nas tradições africanas. Mato Grosso tem uma forte influência das culturas portuguesa e espanhola. Eu estou sempre fascinado pelo Brasil que tem tanta cultura e diversidade e ainda assim fora do país é tão pouco conhecido em sua riqueza e profundidade cultural. Por isso é que eu amo tocar a música brasileira e espero tocar o máximo possível até o meu retorno para o Reino Unido. Em janeiro de 2006 eu tive a honra de tocar o rasqueado com 170 crianças inglesas em Londres. Há poucas experiências que podem ser comparadas a isso. A sua formação é bastante clássica. Mencione alguns compositores e/ou obras que você mais admira e que acha que direta ou indiretamente te influenciaram. R: Do mundo da música clássica minhas influências são Claude Debussy, Rachmaninov, Igor Stravinsky, Gustav Mahler and Ralph Vaughan Williams. A minha peça favorita da música clássica é “The Serenade to Music” by Ralph Vaughan Williams. Eu não tenho muita saudade do Reino Unido, quando ouço esta música, às vezes, me imagino lá de volta. Ele soube captar a essência das paisagens britânicas em termos musicais. A Orquestra tem tocado em várias cidades mato-grossenses onde o público, pela primeira vez, presencia um concerto. Você tem reparado na reação desse público? O que poderia dizer sobre isso? R: Em 2007, nós viajamos por 14 municípios do estado de MT com a Orquestra de Câmara. Em todas as cidades os concertos estavam lotados e a recepção foi extraordinária. A passagem de som mais bizarra que eu já fiz foi em um rodeio com treze touros. Acho que eles gostaram. Eu fiquei verdadeiramente agradecido e satisfeito em ver tantas pessoas querendo aprender sobre e ouvir a orquestra. Como um estado, MT tem a responsabilidade de continuar a fomentar o número de eventos culturais disponíveis para a população fora da capital. Eu tenho orgulho e estou muito feliz em ajudar, mesmo com uma pequena parte, para que isso aconteça. David, pra encerrar, vou te pedir pra falar um pouquinho sobre seus planos futuros. R: Meus planos para o próximo ano são ficar em MT e continuar o meu trabalho junto à orquestra e com os estudantes do Projeto Ciranda. Eu também estou desenvolvendo a minha própria carreira aqui no Brasil e estou trabalhando em desenvolvimento de alguns projetos interessantes. Pode dizer também mais alguma coisa se achar que ficou faltando algo nesta entrevista? R: A “Orquestra do Estado do Mato Grosso” é algo que o estado deve ter orgulho. Há muitas pessoas e organizações ao redor do mundo observando a nossa orquestra aqui em MT com grande interesse. Eu recebo regularmente ligações de músicos famosos, bastante conhecidos e respeitados, educadores, e organizações que me perguntam sobre o trabalho da orquestra. Eles também me perguntam porque eu me mudei da Europa para o centro da Brasil. Eu sempre digo a mesma coisa: porque MT é uma área com grande potencial cultural, artístico e com eventos comprometidos com o público. Há dois anos e meio nós auxiliamos na implantação de uma orquestra de câmara bem respeitada com um ótimo trabalho que vem crescendo a cada ano com a demanda da opinião pública. Então eles me perguntam: “Quando sai o próximo vôo para Cuiabá?” *A entrevista foi realizada com a colaboração de Cristiane Gardner e Claudio Oliveira

Edição edição 16957




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