ILUSTRADO
Segunda-feira, 01 de Março de 2010, 22h:06
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CINEMA
Buñuel+Dali=surrealismo
Projeto Imagens em Pauta, juntamente com CineSesc Arsenal vem, desde 2007, formando plateias para o cinema que está fora das salas comerciais
Imagens surpreendentes que revolucionaram a história do cinema são destaque de hoje, às 19h, no CineSesc Arsenal, com a exibição dos filmes Um Cão Andaluz (França. 1929. 16) e A Idade do Ouro (França. 1930. 60) de Luis Buñuel e Salvador Dali. Os filmes abrem o quarto ano do Imagens em Pauta, projeto organizado pelos produtores culturais Diego Baraldi e Juliana Curvo, realizado pelo SESC Mato Grosso em parceria com o Curso de Comunicação Social da UFMT. Com entrada gratuita e promovendo o hábito de assistir a e saber mais sobre filmes de diferentes estéticas e cinematografias, o Imagens em Pauta, juntamente com a programação do CineSesc Arsenal vem, desde 2007, formando plateias para o cinema que está distante das salas de exibição comerciais de Cuiabá. Em 2010, o projeto continua sua programação em ciclos. De março a maio acontece o Ciclo Buñuel, que exibirá filmes de diferentes fases do cineasta espanhol Luis Buñuel (1900-1983): os filmes surrealistas iniciais que influenciaram toda sua filmografia (Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro), realizados colaborativamente com Salvador Dali, passando por marcos da fase mexicana (Os Esquecidos, O Anjo Exterminador e Nazarín) e, principalmente, pelos filmes da fase francesa (Tristana e os seis filmes em que contou com Jean-Claude Carrière como co-roteirista, de O Diário de uma Camareira a Esse obscuro objeto do Desejo). Complementa o ciclo o texto-síntese (abaixo) da obra de Buñuel elaborado pela professora Maria Thereza Azevedo (ECCO/UFMT). Sobre Buñuel e os filmes exibidos O sonho, o absurdo e o contraditório são marcos do cinema realizado por Luis Buñuel. "Um Cão Andaluz" é o filme de estreia do cineasta, em parceria com Salvador Dali, e fez parte da eclosão do movimento surrealista, cujos princípios fundamentais eram a contestação dos valores burgueses, a abolição da lógica cartesiana na produção artística e a denúncia das contradições existentes em instituições como o Estado e a Igreja. O filme é constituído por uma sequência de cenas absurdas e sem ligação aparente, como que em sonhos. Em A idade do ouro, Buñuel e Dalí criam imagens surrealistas que criticam acidamente as amarras impostas ao homem pelo moralismo da sociedade e suas instituições. Polêmico, o filme foi proibido em diversos países (incluindo a França) durante décadas. (Com Assessoria) Luis Buñuel: A Ambiguidade Como Princípio Um olho rasgado por uma navalha é a cena de Um cão andaluz, que vai marcar a história do cinema e determinar a obra do cineasta espanhol Luiz Buñuel. O corte no olho, como ruptura do olho habituado e engessado pelos padrões. A navalha bisturi que cortou o olho, disseca, sem piedade, ao longo de seus filmes, não só a moral e o determinismo burguês que regem as sociedades cristãs, focos de ataque do cineasta, mas os mecanismos e o sistema de signos que os comandam. E a dissecação corrosiva é feita de dentro do próprio sistema da linguagem. Buñuel adota os estereótipos convencionais e cria seus filmes exatamente a partir da estrutura da decupagem clássica do cinema; faz do gênero melodramático, representação máxima do drama burguês, o suporte para tramar suas impiedosas ironias; constrói o melodrama destruindo-o com suas bizarras justaposições e seu cinismo afiado, num exercício de esfacelamento da ordem, que causa estranhamento e assustamento. Nem os filmes mais convencionais do diretor como os da fase mexicana escapam do terreno movediço da ambigüidade. A ambigüidade como principio poético e forma de exercício da instabilidade e do mistério do mundo, de um universo que não se deixa decifrar. (Por Dr.ª Maria Thereza)