ESPORTES
Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008, 23h:12
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NATAÇÃO
Mãe de Joanna quebra o silêncio
ANGELA LACERDA
Da Agência Estado Recife, PE
A médica Terezinha Maranhão, mãe da nadadora Joanna Maranhão, quebrou o sigilo e acusou o técnico Eugênio Miranda de ter abusado sexualmente da sua filha quando ela tinha 9 anos. A atleta havia revelado o caso na semana passada, mas sem citar nomes, dizendo que o considerava o assunto encerrado e já superado. Miranda foi afastado ontem da escola onde ensinava natação havia quatro anos. Apesar da medida, a direção do Colégio Santa Emília, no bairro de Jardim Atlântico, em Olinda, destacou que o professor sempre teve um comportamento ilibado. Ele negou a acusação e prometeu que falaria à imprensa depois de conversar com sua família e com um advogado. "Uma acusação dessas destrói a reputação de uma pessoa e lhe fecha o mercado de trabalho", avaliou o coordenador de esportes do Colégio Santa Emília, Sérgio Ricardo Ferreira, que se dispõe a testemunhar em favor de Eugênio Miranda em um eventual processo judicial que ele venha a impetrar contra a família Maranhão. Segundo ele, desde seu afastamento, pais e alunos têm telefonado para se solidarizar com o professor. Sérgio Ricardo disse só ter elogios ao ex-técnico nos dois anos em que está à frente da coordenação de esportes do estabelecimento. Com passagens pelo Sport, AABB e colégios do Recife, Eugênio Miranda começou a treinar Joanna Maranhão quando ela tinha 7 anos, no clube Português. Segundo Teresinha, quando ele passou a dar aulas no Náutico, a filha o acompanhou. "Resolvi falar porque cansei de especulações e achei injusto com outros técnicos que são decentes e que poderiam ter seus nomes envolvidos", disse a mãe de Joanna nesta quarta-feira. "Para mim foi importante dar o nome, mostrar que essa história não é uma lenda". Teresinha disse que Eugênio Miranda era amigo da família e tinha sua total confiança. Ele, a esposa e os filhos passavam férias na sua casa na Ilha de Itamaracá, e Joanna chegou a dormir na sua casa algumas vezes. Provedora da família, Teresinha trabalhava muito e deixava muitas vezes a filha aos cuidados do treinador. "Eu errei", penitenciou-se Teresinha. "Joanna tentou sinalizar na época o que estava acontecendo, mas achei tão aberrante, tinha tanta confiança nele, que achei que ela poderia estar confundindo carinho com assédio". Com isso, ela acredita que a filha reprimiu ainda mais os sentimentos e o próprio fato, até que na semana passada falou sobre o assunto em uma entrevista por telefone, falando da França, onde passou três semanas treinando em local de altitude. Em uma entrevista sobre toda a sua carreira, Joanna disse ter sido molestada na infância, dentro da piscina, pelo seu então técnico. Teresinha afirmou ter revisto valores ao ter acompanhado seu único irmão, Sérgio Maranhão, tio e padrinho de Joanna, durante os 34 dias em que ele passou numa UTI de hospital. "É tanta correria que a gente deixa de usufruir muita coisa na vida, deixa de estar com os filhos". Sérgio morreu quando Joanna estava fora. Nesta quarta-feira foi realizada a missa de sétimo dia. Ao desembarcar no Aeroporto Internacional dos Guararapes, na tarde da segunda-feira, vindo da França, Joanna havia garantido que não iria falar o nome do ex-técnico. Frisou que não estava querendo dramatizar o fato - que por muito tempo tentou abafar dentro de si, chegando até duvidar da sua veracidade. O que aconteceu, segundo ela explicou aos repórteres que a aguardaram no saguão do aeroporto, é que ela havia reprimido tudo o que havia acontecido durante muitos anos. Nas terapias a que se submeteu em 2005 e 2006, foi entendendo que precisava digerir isso para seguir em frente. "Fui lembrando de vários fatos que aconteceram e que eu não lembrava e isso lógico que mexe. Isso afetou não só o meu esporte, mas os meus estudos, o meu namoro, a relação com a família", afirmou. Joanna quis, então, que sua história servisse de alerta para que não viesse a se repetir com outras meninas e atletas. Mesmo que ela ou sua família quisessem entrar na justiça contra o ex-técnico, não caberia mais tal atitude. Queixa criminal só seria possível enquanto ela era menor. Joanna teria sido molestada aos 9 anos e está com 20. Desaprovação - A atleta não gostou da iniciativa da mãe em revelar o nome do ex-técnico, mas disse respeitá-la e reforçou a determinação de não falar mais sobre o assunto. "Sou impulsiva e resolvi dizer, até mesmo para tirar o foco de cima da minha filha", disse Teresinha, que não teme responder a um processo judicial. "Lógico que ele vai negar e não há como provar com prova de São Tomé", disse. "Mas há provas indiretas, há os médicos, psicólogos, rendimento escolar, a relação pessoal e familiar de Joanna. Lutei anos com problema de comportamento de Joanna", afirmou, ao observar que desde os 12 anos a filha teve acompanhamento psicológico. Teresinha disse esperar que a sua iniciativa não atrapalhe o treinamento da filha, que se esforça para conseguir o índice que lhe permita disputar os 400 metros medley na Olimpíada de Pequim - o tempo de 4min45s08 nos 400 metros medley. Desde segunda-feira, ela tem realizado dois treinos diários na piscina do Clube Português. O técnico de Joanna, João Reynaldo, o Nikita, acredita que ela está focada, mas teme que as críticas que lhe têm sido endereçadas pela internet e sites de relacionamento - além do assédio da imprensa - a tirem do objetivo. "Foram duas bombas na família (a morte do tio e a revelação do suposto autor do abuso sexual), vamos esperar as coisas se acalmarem para avaliar se há melhora no seu desempenho", afirmou o técnico, que ainda não conseguiu, nesta semana, sentar com Joanna para traçar um planejamento de trabalho. Em 2004, na Olimpíada de Atenas, Joanna foi finalista nos 400 metros medley com o tempo de 4min40s00, até hoje o recorde brasileiro. De lá para cá, ela não conseguiu repetir o feito e seus índices caíram. Em março ela terá a chance de alcançar a marca que poderá carimbar o seu passaporte para Pequim no Sul-Americano, em São Paulo. Nikita desaprova o local da competição - o Clube Pinheiros - por considerar que a sua piscina não é adequada para uma competição desse porte. Ele defende que o evento se realizasse em uma piscina no nível do mar - no Rio, em Salvador ou no Recife, o que facilitaria a atuação dos nadadores.