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Quinta-feira, 17 de Junho de 2010, 21h:01

QUE DÓ!

África do Sul acorda estonteada

Após derrota para time uruguaio, clima continua de tristeza. Ninguém acredita na possibilidade de um milagre na terça-feira

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ
Da Agência Estado - Johannesburgo, África do Sul
Não chega a ser tristeza, mas há algo diferente no ar em Johannesburgo. Ou falta algo no ar, quem sabe o incansável som de corneta que se fazia ouvir dia e noite, mesmo que fraquinho, vindo lá de longe? Aquela "eletricidade" das duas últimas semanas se foi, parece. É como se a vida tivesse voltado ao normal depois de um tempo de extrema excitação. É como se o day after da derrota para o Uruguai tivesse jogado os sul-africanos de Joburg [Johannesburgo] numa mistura de dormência e frustração que não lhes deixa pensar direito no que vai ser daqui pra frente, diante da iminente desclassificação. É como se agora só restasse o êxtase dos outros, principalmente o dos argentinos. Os jornais locais acordaram todos nessa melancólica toada ontem. "Ai, Bafana!", lamentou na capa do o The Citzen, com uma foto do goleiro Khune desesperado, mãos na cabeça, logo depois de ser expulso na noite anterior. "O sonho está por um fio. Só um milagre pode salvar a África do Sul agora", anotou o jornal. Para o popular Sowetan, a situação agora é de "agonia". Sob o título "Pesadelo", o diário escreveu que, depois do primeiro gol do uruguaio Forlán, "todo o país caiu num silêncio desses que a gente só vê em funeral de macaco". Falando em "dor no coração", o The Star relatou a transformação do espírito dos torcedores depois da derrota. "É a morte do sonho nacional", disse uma torcedora que o diário não identificou. "Os sangomas (uma espécie de pajé de algumas tribos sul-africanas) não trabalharam. Levar três gols não é constrangedor. É humilhante." Até o econômico Business Day trouxe para a capa o que chamou de "desmoronamento" dos Bafana Bafana. O redator pesou a mão para expressar todo o seu desapontamento: "A África do Sul encara a ignomínia de se tornar o primeiro país sede a não avançar além da fase de grupos em uma Copa, depois que a seleção colheu uma derrota frustrante para o Uruguai". As vozes das ruas cantam o mesmo fado. "Três a zero foi demais. Um empate, ou uma derrota por 1 x 0 ainda nos manteria animados, mas agora é o fim", dizia, nesta quinta-feira, à noite Innocent Gondo, um vigia de um prédio comercial em Sandton que se preparava para voltar para casa, no subúrbio pobre de Tembisa, ao norte de Johannesburgo. "Estávamos orgulhosos daqueles caras (os jogadores da seleção sul-africana), mas contra o Uruguai eles não fizeram o que tinham que fazer", analisou o torcedor. Do outro lado da rua, numa concessionária BMW, o vendedor Sheldon Tonkin, todo sério dentro de seu traje elegante, dizia que não pretendia mais usar a sua camisa da seleção Bafana Bafana. "Chorei assistindo ao jogo. Chorei porque não acreditava que nossos jogadores pudessem ter baixado a cabeça daquele jeito depois do primeiro gol do Uruguai", contou. "Perdi toda a minha fé na seleção. Voltarei ao meu clube, o Manchester United, que não me desaponta tanto assim." Sem a menor solidariedade ao colega, outro vendedor da mesma loja, Marric Wilson, um sujeito alto, de bochechas rosadas e fã de críquete, chamava para ver mensagens eletrônicas engraçadinhas que recebera ao longo do dia - todos gozando a derrota para o Uruguai, alguns escritos em africâner, a língua do colonizador holandês. Uma das mensagens dizia que só havia uma maneira de a África do Sul ter vencido os uruguaios: se a partida fosse de rúgbi. Em outra, um gaiato montou uma falsa propaganda de um "silenciador de vuvuzelas - agora em azul e branco". A imagem do anúncio era uma foto de Forlán comemorando.

Edição EDIÇÃO 16958




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