Editoriais
Sábado, 24 de Julho de 2010, 12h:19
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Rebite ao volante
Arquivos da polícia nos Estados Unidos guardam estranhos depoimentos de motoristas que provocaram acidentes pelo uso do rebite. Tais profissionais sustentam terem visto um cachorro preto cruzando a pista. Em Mato Grosso, quando de acidentes envolvendo veículos do transporte pesado a desculpa esfarrapada é quase sempre a mesma: foram fechados por outros carros. A alucinação de motoristas nos Estados Unidos inspiraram o diretor Kevin Hooks a fazer o filme Estrada Alucinante (título em inglês Black Dog), com Patrick Swayze ator de Ghost - no papel principal. Hooks aborda um tema sempre atual e intrigante tanto nos Estados Unidos quanto aqui: o uso do rebite por caminhoneiros. Rebite é o apelido dado aos comprimidos de anfetaminas, cujos efeitos colaterais tiram o sono, sobretudo quando ingeridos com café. Rebitado, o motorista fica aceso, perde o sono. Sente-se animado a espichar o trecho. Porém, esse mesmo comprimido rouba os reflexos, altera os batimentos cardíacos, embota o raciocínio, pode desembocar em sono profundo. Resultado mais trágico, impossível: é o grande causador de acidentes nas estradas em Mato Grosso. Consideradas drogas psicotrópicas agem sobre o psiquismo como calmante ou como estimulante, ou provocando perturbações psíquicas as anfetaminas são vendidas por baixo dos panos. Esses medicamentos são facilmente encontrados com ambulantes nos pátios dos postos e até mesmo nos cabarés que fazem a alegria do pessoal do volante. Em Mato Grosso não há estatística oficial sobre o número de acidentes causados por carreteiros rebitados e nunca os sobreviventes debitaram os acidentes ao Black Dog, ou cachorro preto no mais puro português, mas dentro e fora das cabines dos possantes a grande maioria sabe que o rebite é o braço direito da morte. O uso do rebite é corriqueiro, mas a categoria dos transportadores não merece tal pecha. Porém, os que insistem em usá-lo na vã esperança de conseguirem força para se manterem por mais tempo ao volante colocam em permanente risco os usuários das estradas em Mato Grosso. Hoje, em Cuiabá, é data festiva para os profissionais do volante, que reverenciam seu padroeiro, São Cristóvão, num posto na BR-364, nas imediações da cidade. Tomara que os motoristas e promotores do evento incluam à programação palestras de conscientização para alertar os motoristas e carreteiros para o risco que representa o uso do rebite. Somente a conscientização é capaz de eliminar o uso do rebite. Fora dela não há expectativa, porque o efetivo da Polícia Rodoviária Federal (PRF) é pequeno e há poucos postos dessa corporação nas estradas mato-grossenses. Dificilmente algum profissional do volante não perdeu um parente, amigo ou conhecido em acidente causado pelo uso do rebite. Fazê-lo entender o quanto é perigosa essa prática é imprescindível para que a imaginária fechada que é nossa versão do cachorro preto americano continue causando tanta dor e derramando tanto sangue em nossas pistas. Somente a conscientização é capaz de eliminar o uso do rebite. Fora dela não há expectativa