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Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006, 21h:27

Mudança ideológica

Numa declaração surpreendente, o presidente Lula confessou que, com os anos e a experiência, sua posição política tende a se afastar da esquerda, aproximando-se da social-democracia e do centro. "E as coisas vão confluindo, de acordo com a quantidade de cabelos brancos que você tem", disse o presidente. Parodiando uma conhecida expressão de que "não ser comunista quando jovem é não ter coração, mas continuar comunista quando adulto é não ter cérebro", o presidente ativou uma velha polêmica. O que significa ser de esquerda? Na Assembléia Nacional Francesa, onde se cunhou a expressão, designava apenas os deputados que, no plenário, sentavam-se à esquerda do presidente. O que significa ser de esquerda ou de direita num mundo que se transformou a ponto de reduzir a importância das organizações de trabalhadores, valorizar o trabalho (mais que o emprego), colocar a terceira Revolução Industrial no lugar da segunda e assistir ao fim das distâncias e ao ocaso das velhas ideologias como efeitos da globalização? Pois, com a declaração, o presidente, de maneira pragmática e espontânea, como é de sua índole, relativizou os conceitos de esquerda e de direita, somando-se a um processo que vem ganhando adesões desde o fim da Guerra Fria e a desintegração da União Soviética. De alguma maneira, essa polêmica tem a ver com a rediscussão do papel do Estado, com a ascensão e queda do chamado Estado de bem-estar social na Europa, com as políticas de efetivo desenvolvimento nos países periféricos, com a crescente exigência de responsabilidade social das empresas, com a necessidade de democracias que aliem liberdade e progresso ou de nações que sem radicalismos promovam políticas de inclusão social e de distribuição dos benefícios do crescimento. Para um país que precisa de um mutirão nacional para romper as travas que impedem a retomada da expansão, o aceno que está por trás da guinada presidencial aponta para o fortalecimento de um núcleo político sólido, ideologicamente próximo do centro do espectro ideológico. Para a práxis do atual governo, significa dar o nome certo ao que vem ocorrendo desde o início. Significa também aproximar a ação governamental do pensamento e das necessidades das maiorias brasileiras que, como reiteradamente mostraram nas urnas, não confiam em radicalismos de nenhuma espécie. Mas não significa considerar desnecessários os partidos e os políticos que professam posições mais extremadas, à esquerda ou à direita. Acima e além das polêmicas ideológicas que a declaração do presidente Lula provocará, o que a sociedade brasileira espera do próximo mandato e dos governos que sucederem a ele é uma postura que não subordine os interesses nacionais a quaisquer preconceitos ou a quaisquer rótulos políticos, em especial àqueles que a História já se encarregou de desvalorizar. “Necessidade de democracias que aliem liberdade e progresso”

Edição EDIÇÃO 16958




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