Editoriais
Sábado, 02 de Junho de 2001, 12h:29
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Convívio com o racionamento
Deflagra-se amanhã em três regiões brasileiras, entre elas o Centro-Oeste, um severo e ambicioso programa de racionamento de energia no qual a sociedade civil e a comunidade econômica são chamadas a colaborar para impedir medidas ainda mais radicais. Em contraste com uma guerra de bastidores entre os envolvidos diretamente na definição de regras para o racionamento, consumidores residenciais e empresas que são as vítimas dão uma demonstração de maturidade para enfrentar o problema. Enquanto integrantes da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica só na última semana conseguiam definir regras essenciais para as medidas que vão vigorar a partir deste mês, a população de todo o país, mesmo nas regiões poupadas inicialmente dos efeitos da imprevidência oficial nesta área, já deu demonstrações concretas de colaboração. A Região Sul, graças a investimentos realizados nos últimos anos e a condições climáticas regulares, está excluída por enquanto do racionamento, mas apesar disso não está se furtando, seja no âmbito do poder seja no da sociedade, de apoiar os esforços das demais regiões, assumindo programas de redução de consumo e de eliminação de desperdícios. Essa participação popular, verificada em todas as regiões, tem sido merecidamente destacada como um fato revelador de uma solidariedade que engrandece o país. Essa postura positiva e patriótica deve deixar isoladas as tentativas de aproveitadores e de aventureiros que usam a crise para se promover ou para promover uma caça aos culpados, como se isso fosse a única coisa a ser feita. Não será pois por falta de engajamento social que as medidas fracassarão. Por isso, ao lado das decisões objetivas e emergenciais e ao lado do conjunto de medidas tributárias de incentivo à produção, o país precisa aproveitar a oportunidade para rediscutir a própria matriz desse insumo estratégico para o desenvolvimento e desse serviço essencial para a população. O fato de grande parte da energia elétrica brasileira ser oriunda de recursos hídricos expõe o país aos riscos de uma crise como a que Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste hoje experimentam, vivamente dependentes de ocorrências climáticas e do regime de chuvas. A questão não pode ficar restrita às medidas emergenciais ou aos incentivos tributários. Está na hora de rediscutir as próprias fontes de onde vem a energia, incluindo aí tanto a aceleração dos projetos energéticos em andamento e, principalmente, a busca de novas alternativas. Gás, carvão, vento e sol são opções que não podem deixar de ser avaliadas. O gás pela estrutura já montada ou em fase de montagem representa uma opção facilitada. Carvão, vento e sol, por se constituírem em produtos e elementos largamente disponíveis, exigem estudos mais conclusivos sobre sua utilização. No ambiente de tensões cotidianas, de indefinição sobre o nível de repercussão na atividade econômica e mesmo sobre até que ponto os cidadãos estarão livres de um blecaute, amplia-se para a sociedade o desafio de tentar reduzir os efeitos da crise. Gás, carvão, vento e sol estão a exigir estudos mais conclusivos sobre sua utilização