CIDADES
Sábado, 17 de Março de 2007, 14h:04
A
A
COLNIZA
Tempo violento acabou, alega população
Moradores antigos, a maioria sulista, vivem hoje o desgaste provocado pelo estudo da OEI e rechaçam a idéia de que no município ainda se mata por nada
RODRIGO VARGAS
Da Reportagem
Você sabe para onde está indo? É para o lugar que mais mata gente no Brasil, informa o senhor de cabelos brancos e chapéu de boiadeiro, tão logo descobre o destino final do viajante que segue ao seu lado. Saiu até na televisão. O ônibus acaba de deixar a rodoviária de Juína (735 quilômetros de Cuiabá) em direção a Colniza. Em função da precariedade do trecho de pouco mais de 350 quilômetros a viagem está prevista para durar 12 horas, na melhor das hipóteses. No caminho, a pesquisa da Globo é o assunto mais comentado. Trata-se da reportagem, exibida pelo programa Fantástico no final de semana anterior, enfocando o principal resultado do Mapa da Violência da Organização dos Estados Ibero-americanos (OIE). A chegada à cidade só amplia este panorama. Os moradores se dividem entre os que discordam totalmente dos resultados, e os que apenas admitem que a cidade já viveu momento semelhante ao retratado na pesquisa. Em São Paulo morre gente todo dia. Por que é que aqui vai ser o lugar mais violento? Eu não troco a tranqüilidade que tenho em Colniza por uma casa em Cuiabá, por exemplo, reclama o agricultor Valmir Kamir, 42 anos, migrante vindo de Ibiruguá (RS), há dez anos. Primeiro morador a construir uma casa no projeto de colonização que daria origem à cidade, o empresário Elias Antônio Barbosa, 51, chegou à região em abril de 1986. Segundo ele, a pesquisa é infundada e vem causando constrangimento aos moradores. Minha filha estuda no Paraná e usa um carro com placa de Colniza. Ela me contou que as pessoas estão apontando para ela nas ruas. Quando digo a pessoas de fora que sou daqui, elas se espantam, como se fosse um local de guerra. É algo absurdo, reclamou. O paranaense Francisco Boritza diz que o tempo da violência já acabou. E que, mesmo naquele período, se limitava a disputas de terra longe da sede do município. Eu nunca vi matar pessoa de bem. Na maioria das vezes, era só pistoleiro que matava grileiro e vice-versa. Na cidade mesmo, nunca vi briga. Outro pioneiro descontente é o também empresário Cidnei Zílio, o Cidão. Segundo ele, a diferença populacional foi a responsável pela má colocação da cidade. Na zona rural, segundo ele, vivem grupos que, mesmo à época do censo do IBGE, não aparecem nas estatísticas oficiais. Aqui tem muita gente que vive na zona rural, em locais sem acesso algum. São moradores de Colniza que o IBGE nunca procurou. Hoje temos mais de 40 mil habitantes, com certeza. Na pesquisa da Globo, usaram só 12 mil. Para o morador, o Mapa da Violência é o golpe mais duro já sofrido desde as operações Curupira I e II e Rio Pardo, da Polícia Federal, a quem aponta como responsáveis pela derrocada do setor madeireiro e da conseqüente estagnação econômica atual. O único medo que tenho hoje é pelo futuro de cidade. Por aqui está tudo parado, não tem mais movimento e muita gente está indo embora. Os empresários, que já estavam desistindo de investir, agora é que não vêm mesmo.