Os seres encantados da água não são nem bons nem maus. Eles se enfurecem ou prestam favores, de acordo com a situação. Há até casos em que um homem assombrado se levanta das profundezas da água, para espantar aqueles que já fisgaram peixes suficientes, mas insistem em pescar mais. São como os dragões do Egito, que davam borboletas, mas também tempestades, compara o pesquisador Mário Leite. As ligações entre a realidade concreta e o universo do encantamento geram misturas intrigantes. De um lado, Mário Leite colheu depoimentos em que a população aponta a necessidade de pesquisas científicas sobre os misteriosos fenômenos da baía de Chacororé e seus personagens encantados. De outro, também os seres da água demonstram curiosidade em compreender os seres humanos. Eles levam as pessoas para o fundo só para pesquisar, aponta um dos relatos da tese. É comum, de acordo com os depoimentos colhidos, que os machos levem moças para a água e que as entidades femininas como a Mãe dÁgua carreguem os homens. Um dos aspectos que mais intrigam o pesquisador Marcos Leite é a intrincada aliança entre os conhecimentos da natureza e as interpretações mágicas dos fenômenos. No pantanal, poucos conhecem melhor os fenômenos naturais que a população ribeirinha, que se criou e foi criada naquele ambiente. São pessoas que sabem quando vai chover, qual o ritmo das águas, o caminho dos peixes em busca de alimento ou reprodução e assim por diante. Mas, apesar de deterem esse tipo de conhecimento, não o dissocia de outras explicações, de cunho mágico. Encantamento e natureza se completam. A existência de ondas em Chacororé poderia ser atribuída a fenômenos naturais que eles conhecem bem mas são delegadas às forças mágicas, afirma. (CP) LEIA TAMBÉM #LINK#54525#Mitos do Pantanal vivem transformação #LINK#54527#Relatos incluem referência a outros povos #LINK#54529#Seres míticos são ambíguos #LINK#54528#Minhocão é o mais temida criatura das águas