CIDADES
Sábado, 02 de Junho de 2001, 16h:04
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Relatos incluem referência a outros povos
Mitos europeus, africanos e indígenas navegam no mesmo barco. Na origem dos relatos brasileiros sobre as águas e seus encantamentos, podem ser encontradas referências de outras histórias espalhadas pelos quatro cantos do mundo. A confluência de relatos inclui ainda influências do oriente, herdadas pelos 300 anos de dominação moura sobre o povo lusitano. Um dos grandes mitos contados em Portugal era a Moura Encantada, que guardava tesouros para o dia em que os mouros voltassem ao país, cita o pesquisador Mário Cézar Leite. Sob ameaça, a guardiã transformava-se em serpente. A mistura de mitos também deságua em território africano. Segundo Mário Leite, as influências da cultura negra são um dos aspectos mais interessantes do encantamento atribuído à baía de Chacororé. Um dos relatos sobre a Mãe dÁgua, por exemplo, revela que ela combinou dar a um pescador 500 quilos de peixe, desde que, em troca, ele a presenteasse com um pente, uma toalha e um sabonete. Isso evidencia a carga mitológica africana e a forte presença das mães afro-brasileiras, considera Mário Leite. Segundo a lenda, a oferenda foi colocada sobre uma pedra e o pescador conseguiu seu presente, em troca. Depois, a água passou a exalar sabonete, que perfumava em qualquer parte da água em que se tocasse. O mito do barco encantado - que assombra as noites da baía de Chacororé também está presente em outras culturas, tempos e espaços. Mário Leite enxerga ainda semelhanças entre Si mãe indígena e a lenda européia da sereia encantada. Os portugueses foram colando, sobre as histórias indígenas, seus próprios mitos, acredita Mário Leite. Ele observa ainda que a maioria dos seres em forma de gente que vivem nas baías são descritos com cabelo claro como ouro sobre a água, completa. Mário Leite observa ainda que a carta de Pero Vaz de Caminha é o reflexo da importância da água para as populações indígenas. O pesquisador destaca em sua tese que água limpa foi um dos primeiros presentes dados pelos índios aos visitantes portugueses. Eles ofereciam cuias e enchiam barris, descreve ele, acrescentando: Depois de ler isso, passei sobre a ponte do rio Cuiabá. Que miséria, pensei. (CP) LEIA TAMBÉM #LINK#54525#Mitos do Pantanal vivem transformação #LINK#54527#Relatos incluem referência a outros povos #LINK#54529#Seres míticos são ambíguos #LINK#54528#Minhocão é o mais temida criatura das águas