Os atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos derrubaram o consenso internacional de que a tortura é um método abominável e não se justifica em nenhuma hipótese. Segundo especialistas que participam do 1º Seminário Internacional sobre a Tortura, organizado pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), os ataques da Al-Qaeda deram motivo para anuência da tortura e da violência no combate ao terrorismo. "Foram justificativas para o aumento da força do Estado e para dar razão a infrações aos direitos individuais", disse a deputada geral do conselho da organização Human Rights Watch, Dinah Pokempner, uma das palestrantes do evento. A mesma opinião tem o Ph.D. do Centro de Filosofia Aplicada e Ética Pública da Universidade Nacional da Austrália, Fritz Allhoff. Para ele, "houve um relaxamento no repúdio à tortura e à violação de direitos humanos, tanto pela comunidade política quanto pela acadêmica, como justificativa para evitar um mal maior". Ele se refere ao argumento chamado de "bomba-relógio" (ticking time-bomb), que justificaria o uso de métodos não convencionais e condenáveis por acordos internacionais para conseguir informações que evitariam uma perda maior - por exemplo, a tortura de um suposto terrorista para ele revelar informações sobre um futuro atentado. Mas Allhoff questiona o argumento, dizendo que não há comprovação de que pela tortura sejam obtidos "resultados maiores que por métodos convencionais de interrogatório". Allhoff é cético quanto à erradicação total da tortura no mundo. Em sua opinião, a violência decorre dos problemas sócioeconômicos: quanto mais pobreza, mais comuns os casos de violência, de tortura e infrações sobre os direitos das pessoas. "E é impossível acabar com os problemas sócioeconômicos em todos os lugares do planeta. Isso demanda muito dinheiro e muito trabalho duro. Mas as ações têm de ir no sentido de diminuir as diferenças sociais", disse.